(Peter-Gronemann/Creative Commons)

O desenvolvimento do V-22 Osprey levou 20 anos e custou mais de US$ 35 bilhões (Peter-Gronemann/Creative Commons)

Na designação dos Marines, os fuzileiros navais dos Estados Unidos, chamam-lhe de “Envolvimento Vertical”. Trata-se de uma técnica onde tropas são transportadas em alta velocidade por uma costa bem defendida sobrevoando o território hostil e pousam atrás das linhas inimigas, antes que essas possam reagir. Para tal missão, nada pode transportar os soldados mais depressa que o Bell-Boeing V-22 Osprey, aeronave revolucionária que completou 30 anos de seu voo inaugural nesta terça-feira (19).

Capaz de voar como um avião, mas que decola e pousa como um helicóptero, o V-22 Osprey mudou drasticamente a forma como militares e equipamentos podem ser desembarcados em um cenário de guerra. Com os rotores orientados para cima, o Osprey decola e pousa verticalmente, saindo de navios ou do solo. Uma rotação de 90° para a frente, transformam os rotores em hélices, permitindo a excêntrica aeronave voar duas vezes mais depressa, mais alto e por maiores distâncias que um helicóptero.


Ideia antiga

A criação de uma aeronave como o V-22 remonta aos tempos do nascimento da aviação, quando foram registrados várias patentes de autogiros, heliplanos e aparelhos com rotores basculantes. Porém, devido a limitação tecnológica daquele tempo, foram poucos os projetos que chegaram a voar. Em 1951, o Marine Corps publicou as especificações para um avião de apoio, rápido, de decolagem vertical ou em pistas pequenas.

A fabricante de helicópteros Bell foi a primeiro nome da indústria aeronáutica a se aprofundar nesse conceito e escolheu os rotores basculantes para atender as especificações dos Marines. Tal projeto, no entanto, começou a ganhar forma somente na década de 1960, quando a empresa norte-americana iniciou o desenvolvimento do protótipo XV-15, que voou pela primeira vez em maio de 1977 e em pouco tempo já causou espanto: o aparelho apresentava a mesma versatilidade de um helicóptero e podia voar a velocidade máxima de 550 km/h!

O V-22 Osprey foi desenvolvido a partir do Bell XV-15 (NASA)

O V-22 Osprey foi desenvolvido a partir do Bell XV-15 (NASA)

Com o sucesso imediato alcançado com os protótipos do XV-15, o departamento de defesa dos EUA lançou o programa JVX para todos os ramos das forças armadas do país. Em 1981, a Bell e a Boeing anunciaram uma parceria para criar uma aeronave de rotores basculantes ainda mais avançada, que mais tarde seria batizada de V-22 Osprey (nome em inglês para águia-pescadora).


A Boeing ficou responsável pelo desenvolvimento da fuselagem e sistemas de integração, enquanto a Bell projetou a parte mais complexa da aeronave, os rotores basculantes, além das asas e os motores.

Embora muito parecido com o XV-15 numa escala ampliada, o V-22 era muito mais complexo. A maior parte do “avião-helicóptero” é construída com materiais compostos resistentes o suficiente para suportar impactos de projéteis de até 30 mm. Outra inovação do Osprey foi a introdução dos controles totalmente eletrônicos (fly-by-wire), essenciais para a transição do voo horizontal para o vertical e vice-versa. A aeronave também conta com uma porta na cauda, por onde podem embarcar até 24 soldados totalmente equipados (ou até 32 ocupantes) ou mesmo pequenos veículos de combate.

Em missões de transporte, o Osprey pode carregar uma carga interna de até 9.000 kg ou cargas suspensas de até 4.500 kg voando a velocidade de cruzeiro de 370 km/h, uma tarefa impossível para um helicóptero convencional.

Com reabastecimento em voo, o Osprey pode percorrer mais de 1.600 km (US Navy)

Com reabastecimento em voo, o Osprey pode percorrer mais de 3.500 km (US Navy)

Desenvolvimento extremamente complexo

O primeiro voo do Osprey aconteceu em 19 de março de 1989, mas seu desenvolvimento completo até sua entrada em serviço levou 20 anos e consumiu mais de US$ 35 bilhões. Por conta da complexidade do programa e os altos custos, em diversas ocasiões foi cogitado seu cancelamento. Até a véspera de sua estreia com as forças armadas norte-americanas, em 2007, o V-22 era considerado inseguro e até mesmo já obsoleto, devido aos seguidos atrasos enfrentados no projeto.

A produção em série do Osprey recebeu sinal verde do Pentágono somente em 2005, quando foi definido que seriam construídos um total de 458 unidades da aeronave (360 para os Marines, 50 para a força aérea e 48 para a Marinha), a um custo médio de US$ 110 milhões por aparelho, valor que posteriormente foi reduzido para cerca de US$ 75 milhões. Até hoje, foram construídos cerca de 250 exemplares do V-22 e a encomenda original deve ser finalizada somente na próxima década.

Dois MV-22B operando a partir do navio de ataque anfíbio USS Wasp da Marinha dos EUA (US Navy)

Dois MV-22B operando a partir do navio de ataque anfíbio USS Wasp da Marinha dos EUA (US Navy)

Em 12 anos de serviço ativo com as forças armadas dos EUA, os Osprey foram deslocados para missões no Iraque e Afeganistão e também em ações humanitárias no Caribe e África, quase sempre operando a partir de porta-aviões e navios de ataque anfíbio.

Além das forças armadas dos EUA, o Osprey também foi comprado pelo Japão, que recebeu seu primeiro modelo em 2017. A aquisição da aeronave também já foi cogitada pelas forças armadas da Índia, Israel, Coreia do Sul e Emirados Árabes Unidos.

Até hoje considerado extremamente complexo (e muito caro), o Osprey abriu caminho para um novo segmento na aviação militar e também no ramo civil, onde modelos desse tipo estão começando a surgir, como é o caso do AgustaWestland AW609, desenvolvido para atuar como uma alternativa (mais veloz) aos helicópteros de transporte executivo e que, tal como o V-22, ainda enfrenta dura resistência no mercado e enormes desafios de desenvolvimento.

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