Avião da Flybondi: companhia low-cost foi pioneira na Argentina, mas eleição pode mudar cenário (Divulgação)

Muitas coisas estão em jogo na eleição presidencial argentina, cujo primeiro turno ocorre neste domingo (27), e uma delas envolve a aviação comercial. Sob o governo de Mauricio Macri, a Argentina passou por uma profunda desregulamentação do transporte aéreo que deu origem a companhias aéreas de baixo custo com estratégias agressivas e que ajudaram a fazer com que o volume de passageiros no país tenha crescido de forma significativa.

No entanto, o atual presidente deverá perder o cargo para o rival Alberto Fernandez, segundo as pesquisas mais recentes. O candidato do partido Judicialista tem como vice a ex-presidente Cristina Kirchner, cujos anos à frente do país foram conhecidos por medidas populistas e nacionalistas iniciados pelo seu falecido marido, Nestor Kirchner, morto em 2010. Em 2008, o governo voltou a estatizar a companhia aérea Aerolineas Argentinas, então em grave situação financeira após 18 anos em mãos privadas. Nos anos seguintes, a empresa de bandeira do país recebeu injeção de dinheiro, novos aviões e rotas e praticamente monopolizou o tráfego aéreo em conjunto com a Austral Linhas Aéreas.


Em 2017, no entanto, Macri anunciou um plano agressivo para ampliar o tráfego aéreo nacional cuja média de voos por habitante era bem inferior ao Chile e ao Brasil. A ideia era reformar aeroportos no país, investir na Aerolineas Argentinas, mas também incentivar a abertura de companhias aéreas low-cost. No ano passado, empresas como Flybondi, JetSmart, Norwegian e Avianca passaram a disputar mercado com a gigante estatal.

Os reflexos dessa abertura podem ser vistos no aumento expressivo do volume de passageiros em quatro anos. Se em 2015 7,4 milhões de passageiros voaram entre janeiro e setembro, neste ano esse volume saltou para quase 12 milhões. A Aerolineas Argentinas, no entanto, segue com quase dois terços do tráfego aéreo doméstico, mas a participação das low-cost já é de quase 20% em 2019.

O mercado internacional, por sua vez, está estagnado juntamente com a crise econômica severa do país e do aumento do dólar. No continente, a Aerolineas está atrás da LATAM e embora domine os voos de longo alcance sua participação nesse mercado foi de apenas 21% em setembro.

A Norwegian Air se interessou pelo potencial do mercado argentino, mas a realidade tem sido mais dura (Divulgação)

O céu é para todos

As conquistas obtidas com a abertura de mercado têm sido grandes, com a redução do custo das passagens e a abertura de um terceiro aeroporto em Buenos Aires, El Palomar, uma antiga base aérea argentina, e que hoje é o que mais cresce no país, a despeito das restrições de operação e da sua infraestrutura modesta. Essas low-cost já transportaram cerca de 3 milhões de passageiros e paira a dúvida se o provável novo presidente do país manterá as atuais regras vigentes.

Curiosamente, a Flybondi, a primeira dessas novas companhias aéreas, publicou em sua conta no Twitter um slogan que causou protestos em parte de seus clientes. A campanha, com os dizeres “El cielo es de todos” (O céu é de todos), foi ao ar no último domingo e imita a frase e o lay-out da campanha de Alberto Fernandez (Frente de Todos). Não ficou claro que se a companhia apoia o candidato justicialista ou se usou de uma certa ironia em relação a um possível retorno ao quase monopólio da Aerolinas Argentinas.

A campanha da Flybondi fez alusão ao slogan da campanha de Alberto Fernandez (Reprodução)

E o Brasil com isso?

Resta saber se uma provável guinada de volta ao passado ocorrerá e mesmo que isso não aconteça como será o futuro dessas novas empresas. Hoje, com a abertura, elas têm buscado uma expansão rápida na região, inclusive no Brasil onde a Flybondi acaba de estrear e já anunciou que ampliará seus voos.

O caso da Norwegian Air, por exemplo, é bastante delicado. A empresa norueguesa não só escolheu a Argentina para seu primeiro voo na América do Sul como abriu uma subsidiária local e que hoje tem presença discreta e apesar da imagem conhecida e dos seus preços agressivos. A companhia teve apenas 6% de participação no mercado doméstico e menos de 1% no internacional.

Com a economia debilitada e altamente indexada, a Argentina terá grandes desafios para se reerguer nos próximos anos, seja qual dos candidatos vencer. O Brasil é parte da solução e do problema, com seu PIB estagnado, mas talvez o apetite das low-cost argentinas pelo nosso mercado acabe reduzido dependendo do cenário a partir deste domingo de eleição.

Reestatizada em 2008, a Aerolineas Argentinas ainda domina o tráfego aéreo no país (Divulgação)

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