Projeção aproximada de como poderia ter sido o caça supersônico da Embraer (Arte sobre imagem da KAI)

Desde tempos imemoriais, a Embraer tem desenvolvido projetos de aviões modernos, mas nem todos eles acabaram saindo das pranchetas. Um deles, em particular, chama atenção para um problema que a FAB (Força Aérea Brasileira) vive atualmente.

Mas, esse problema não foi vislumbrado pelo governo brasileiro há 30 anos, quando a Embraer executou um projeto ambicioso, que colocaria o Brasil no seleto grupo de países que produzem aeronaves de combate. Não, não estamos falando do AMX.


O avião em questão ficou conhecido como MFT-LF, sigla para MultiFunctional Tatical – Light Fighter, que em outras palavras significa um caça leve tático multifuncional. A proposta era diferente daquela do AMX, que estava em desenvolvimento na época, em plenos anos 80.

O AMX foi focado na função de ataque tático e não tinha capacidade de defesa aérea. Da mesma forma, o jato de combate desenvolvido com empresas italianas também não era dedicado ao treinamento avançado, outra função que seria executada pelo MFT-LF.

Mas, neste último, o diferencial era que seu motor, um turbofan, teria pós-combustor, o que significa uma velocidade máxima acima da barreira do som. Ou seja, supersônico. Com esse importante detalhe, o futuro jato da Embraer poderia ao mesmo tempo substituir dois modelos de aeronaves em uso na FAB.

Uma delas seria o EMB-326 Xavante, que era usado tanto em esquadrões de caça e ataque, quanto no CATRE (antigo Centro de Aplicações Táticas e de Recompletamento de Equipagens), que é o atual Comando Aéreo de Treinamento da Força Aérea, localizado em Natal (RN).


Como a outra parte da função deste já seria superada pelo AMX, restava ao MFT-LF dar conta da instrução dos futuros pilotos da aviação de caça.

MFT-LF

O projeto do MFT-LF foi tocado inteiramente pela Embraer, que utilizou-se do desenvolvimento do AMX para elaborar um caça de combate polivalente, que poderia também funcionar como um treinador avançado, colocando assim os pilotos da FAB no mesmo avião em que serviriam nos esquadrões.

A ideia é mais ou menos igual à do atual AT-29, o EMB-314 Super Tucano, que atua tanto como avião tático na fronteira quanto treinador avançado. No caso do MFT-LF, isso significaria um volume de produção mais elevado do que se imagina, uma vez que se destinava a duas tarefas diferentes.

O caça estava nos seus estágios iniciais quando foi pensado como uma aeronave leve, pequena e altamente manobrável. Com 11,25 metros de comprimento e envergadura de asa de 8,70 metros, o MFT-LF tinha 4,03 metros de altura.

Além das dimensões compactas, muito próximas às do AMX, o novo avião de combate tinha um turbofan Rolls-Royce Snecma MH45 com 3.500 kg de empuxo estático. Provavelmente, com o pós-combustor, estava carga seria bem maior.

As duas versões estudadas pela Embraer, um biplace e um monoplace (Reprodução)

Não há dados sobre o peso da aeronave e nem sua capacidade de transportar armas, mas sabe-se que teria velocidade máxima em torno de 1.600 km/h. O projeto envolvia o uso de pós-combustão para alcançar até Mach 1.7.

Obviamente, tal velocidade o inviabilizava como um interceptador da defesa aérea, deixando essa tarefa a cargo dos então Dassault Mirage III do 1º GDA, em Anápolis (GO). Então, sua segunda missão seria substituir o Northrop F-5 Tiger II.

Nesse caso, a troca do F-5 pelo MFT-LF significaria não só compras para a FAB, que se fossem feitas para substituir a frota em uso, representaria algo em torno de 60 aviões, mas também uma alternativa ao caça americano no mercado internacional.

Como seu motor era de origem anglo-francesa, nesse caso, não haveria restrições impostas pelo governo dos EUA para venda a clientes não alinhados com Washington. Isso igualmente faria com que a suíte de aviônica fosse de origem europeia ou em parte nacional, evitando problemas com o Tio Sam.

Como ele era?

De acordo com imagens ilustrativas fornecidas pela Embraer na época, o MFT-LF tinha muito do AMX em seu design, tendo um nariz pouco afilado e canopy com um ou dois arcos, nesse último na versão biplace, dedicada ao treinamento e possivelmente à guerra eletrônica. Esta estrutura poderia ter abertura lateral, como no AMX.

Chamava atenção também os dutos do motor em formato retangular e verticalizados, cujas entradas de ar formavam corpos adicionais nas laterais da fuselagem central e cortados na vertical junto às asas. Obviamente isso representava adição de tanques internos extras numa comparação com o AMX.

O A-1M é a versão mais recente do AMX, projeto criado em parceria com empresas italianas (FAB)

O design sugerido para o MFT-LF lembrava o do AMX, também produzido pela Embraer (FAB)

Além disso, as asas tinham extensões nos bordos de ataque, ampliando a área alar. Os estabilizadores horizontais estavam integrados ao corpo verticalizado da fuselagem, que se estendia além do limite entre a tubeira do motor e a linha central.

Duas coisas não são vistas nos esboços da Embraer, mas que provavelmente seriam adicionadas à aeronave. Uma é o alerta radar (RWR) e o aviso de aproximação de míssil (MAWS), ambos na empenagem vertical.

E como seria se tivesse voado de verdade?

Como já falamos, a suíte de aviônica de origem norte-americana representaria limitações no mercado externo. Além disso, os excedentes de F-5 na USAF (Força Aérea dos EUA) eram enormes e o país poderia usá-los para abastecer “politicamente” seus aliados em várias partes do mundo e com custo de aquisição às vezes simbólico.

De qualquer forma, a necessidade principal era a FAB, que na ocasião estava tendo problemas para ampliar a frota de F-5, chegando mesmo a considerar a China como fornecedor. Note, estamos falando dos anos 80 e, consequentemente, da ainda existente Guerra Fria.

É lógico imaginar que o MFT-LF seria um bom concorrente do F-5 no mercado internacional e com a vantagem de ser um avião bem mais moderno e com função secundária, o treinamento avançado. Com custo operacional reduzido por esse e outros motivos, o caça se tornaria uma alternativa interessante ao americano.

O F-5 é atualmente o principal caça de defesa aérea do Brasil (FAB)

O MFT-LF poderia ter substituído os antigos F-5 da frota nacional (FAB)

Seu radar provavelmente seria um doppler multímodo, com funções ar-ar, ar-terra, ar-superfície, entre outros. Poderia lançar mísseis e bombas guidas a laser ou TV com pod dedicado, como o Lightning ou o Lantirn, designando alvos que seriam mostrados em telas no cockpit. Futuramente seriam lançadas bombas guiadas por GPS (JDAM).

Mísseis anti-radar e anti-navio poderiam ser lançados também, bem como diversos tipos de armas de fragmentação, por exemplo. O MFT-LF obviamente seria equipado com mísseis ar-ar de curto e médio alcance, com boa capacidade de atingir alvos além do alcance visual (BVR).

O cockpit teria também HUD e, mais adiante, o HMD, que é o capacete com designadores de alvos integrados. Parte da instrumentação seria digital e, futuramente, telas maiores e mais modernas poderiam ser adicionadas na modernização. Os comandos seriam fly-by-wire com manete/manche HOTAS.

O MFT-LF, por concepção do projeto, que envolvia uma óbvia redução de custos, teria certamente uma alça fixa para reabastecimento em voo, a ser feito na época pelos KC-130 (com alguma restrição) e KC-137. O armamento interno provavelmente seria uma dupla de canhões DEFA de 30 mm.

Naval

Embora a Marinha do Brasil estivesse sob a determinação governamental de não possui aviação de asa fixa, o MFT-LF poderia ter evoluído para uma versão naval posteriormente, em meados dos anos 90, depois da mudança política que permitiu à MB dispor de seus próprios aviões.

Assim, o MFT-NLF (adicionamos N de Naval) poderia ser embarcado no porta-aviões Minas Gerais (A-11) e posteriormente no São Paulo (A-12). Com motor mais potente, reforço no trem de pouso, gancho de parada e engate para catapulta, além de proteção contra água do mar, o agora caça naval proveria a defesa aérea da frota e isso significa maior projeção de poder.

Apesar da capacidade naval, os AF-1 atualmente operam a partir de bases terrestres (MB)

Uma versão naval do MFT-LF poderia ter ocupado o espaço dos A-4, comprados pela Marinha do Brasil no final dos anos 1990 (MB)

Pelo que se vê nas imagens, pelo menos 4 suportes fixos estariam sob as asas, além dos pontos de lançamento de mísseis ar-ar de curto alcance e mais a linha central com um ou dois pontos, podendo ainda ter um terceiro para pods de reconhecimento, guerra eletrônica ou designador de alvos.

Na FAB, um arranjo com dois Python 4 e dois Derby (usamos mísseis israelenses como exemplo), além de dois tanques alijáveis e mais um central, daria ao MFT-LF um alcance interessante para fazer PAC (patrulha aérea de combate) de longo alcance. Um suporte duplo poderia substituir o tanque central com mais dois Derby ou estes no lugar dos tanques subalares.

Na Marinha, o MFT-NLF poderia decolar com quatro Derby e dois Python 4, além de um tanque central para defesa da frota e ainda com capacidade para reabastecimento em voo, feito por um tender Gruman S2 Tracker ou mesmo outro caça. Num ataque naval, dois mísseis Exocet AM-39 ou RBS-15F seriam usados com Derby e Python 4.

Implicações futuras

Para alocar 18 unidades por esquadrão de aviação de caça, seriam necessários pelo menos 72 aviões, sendo que 18 deles seriam mais bem empregados em Manaus, na proteção da Amazônia. Outro lote igual ficaria no 1/14º GAV “Pampa”, em Canoas (RS) e os demais nos 1º e 2º Grupos de Aviação de Caça, no Rio de Janeiro.

Para o CATRE, o MFT-LF poderia dispor de um número menor de unidades, assim como para a Marinha. Sua incorporação implicaria em mudanças na função do futuro AT-29, que se tornaria um treinador avançado “primário” e o jato, o “secundário”. Também apressaria o fim do Xavante na FAB, bem como do F-5.

O Xavante foi o principal avião de treinamento avançado da FAB até poucos anos atrás (FAB)

Isso significaria que a concorrência do programa FX não seria levada a cabo para um caça de quarta geração, mas talvez evoluísse para um de quinta geração, com características stealth.

Obviamente que a capacidade limitada de alcance e carga do MFT-LF (por causa de seu pequeno porte), colocaria o 1º GDA na mesma situação que agora, sem aviões que atendam sua missão primária, que é a defesa da capital federal através de interceptação de longo alcance.

Na Marinha, a compra dos McDonnell Douglas A-4 Skyhawk seria evitada e possivelmente o porta-aviões São Paulo receberia uma cara (mas necessária) reforma para operar o caça naval nacional pelo máximo de tempo possível. Outro ponto é que o treinamento avançado dos pilotos da MB seria feito no CATRE da FAB com a mesma aeronave.

Por fim, a Embraer teria um produto que poderia obter clientes no exterior e ampliar sua imagem de fornecedor internacional de aeronaves militares. Mas, o problema é que, na época, o governo não quis financiar o desenvolvimento da aeronave por conta própria e buscou parceiros lá fora.

Com o fim do Guerra Fria no começo dos anos 90, ninguém se habilitou e o MFT-LF nunca saiu das pranchetas da engenharia, infelizmente. Talvez um pouco mais de empenho do governo, tivesse dado ao projeto sustentabilidade para entrar em execução e assim demonstrar ao mercado as vantagens do novo avião.

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