O Comet 4 da BOAC decola: voo histórico (BAe)

Foi há exatos 60 anos que um dos avanços mais significativos da aviação comercial ocorreu. Dois aviões de Havilland DH106 Comet 4 da companhia aérea British Overseas Airways Corporation, mais conhecida como BOAC (e que depois tornou-se a atual British Airways), decolaram, um de Londres e o outro de Nova York, para inaugurar a era dos voos a jato sobre o Oceano Atlântico.

Para se ter uma ideia da revolução que eles causaram na rota internacional mais movimentada no mundo, a ligação entre as duas cidades passou a levar apenas 7 horas contra 18 horas com os aviões movidos a hélices então utilizados.



O marco na história do transporte aéreo ocorreu sob imensa competição. Embora a BOAC tenha estreado o Comet, primeiro jato comercial do mundo, em 1952, os seguidos problemas estruturais do avião, que culminaram com vários acidentes fatais, acabaram prejudicando sua carreira comercial. Ainda assim, a de Havilland buscou corrigir essas falhas com o Comet 4 que, de quebra, possuía uma autonomia bem maior, capaz de realizar a ligação entre Nova York e Londres.

Na época a Boeing já havia entrado na disputa com o avançado 707, um jato maior e de asas enflechadas. A Pan Am, que havia se interessado pelo Comet (mas cancelou suas encomendas após os seguidos acidentes), foi a primeira cliente do 707 e pretendia inaugurar a ligação a jato entre os Estados Unidos e a Europa. No entanto, a BOAC foi mais rápida e entrou para a história apenas três semanas antes da Pan Am – cujo primeiro voo a jato transatlântico ocorreu em 26 de outubro de 1958.

Tripulação relembra o fato

Para comemorar a data, a British Airways convidou dois ex-tripulantes que participaram dos históricos voos para relembrarem o episódio. Um deles é a ex-comissária Peggy Thorne, hoje com 91 anos de idade. “Foi maravilhoso”, lembrou. “Nós estávamos acostumados a viajar para Nova York em Boeing Stratocruisers, que levavam até 20 horas. Não acreditávamos que o voo fosse possível em tão pouco tempo”, completou Peggy.

Hugh Dibley era navegador na BOAC, função hoje extinta na aviação comercial. Ele recorda que a empresa foi ágil em introduzir o voo a jato na rota Londres-Nova York: “O Comet 4 foi entregue à BOAC no dia 30 de setembro e sobrevoou o Atlântico no dia 4 de outubro, o que foi uma grande surpresa para algumas pessoas, até porque foi muito rápido”, revelou. “O jato era o favorito dos pilotos, já que era bom de pilotar e o projeto se traduzia em operações tranquilas. Também tinha grande apelo para os passageiros devido à sua bela aparência e desempenho de decolagem”, comentou.

Na época, no entanto, os voos internacionais ainda eram para poucos passageiros. A própria BOAC oferecia apenas 48 lugares no Comet em duas classes luxuosas – Deluxe e Primeira Classe – com bilhetes custando cerca de 8 mil libras em valores atuais, algo como R$ 40 mil. Hoje a British Airways opera nada menos que 12 voos diários de Londres para Nova York com capacidade para 3.500 lugares na rota e passagens por menos de 300 libras em alguns casos – R$ 1.500 numa conversão simples.

O DeHavilland DH106 Comet conseguiu o feito antes do Boeing 707

Volta por cima dos americanos

Apesar da derrota na corrida para ser o primeiro jato comercial a voar pelo Atlântico, o 707 acabou se sobressaindo em relação ao rival inglês. Foram mais de 850 unidades produzidas contra menos de 150 do pioneiro jato da de Havilland, além de ter dado início ao domínio da Boeing no mercado de aviação comercial. Já a Pan Am, do ambicioso Juan Trippe, teve de engolir a perda da primazia, mas durante décadas foi a companhia aérea mais famosa do mundo até sucumbir no início da década de 90.

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A Pan Am foi a primeira companhia que voou com o Boeing 707, em 1958 (Domínio Público)

Com o então novíssimo 707, a Pan Am prometeu ser a primeira a cruzar o Atlântico a jato (Domínio Público)