O Concorde é apresentado ao mundo há 50 anos: futuro brilhante que não se realizou (Airbus)

O Concorde não era um avião desconhecido do público e da mídia na época, tantas eram as novidades que trazia consigo, mas há exatos 50 anos o jato comercial supersônico enfim aparecia pela primeira vez em público. Foi no dia 11 de dezembro de 1967 que a esguia e futurista aeronave saiu dos hangares da Sud-Aviation em Toulouse, na França. As instalações hoje fazem parte da Airbus e onde são fabricados modelos como o também marcante A380.

Na época, além do Concorde, outro avião comercial habitava a mente das pessoas, o 747, da Boeing, singular pelo seu tamanho nunca visto no setor. Mas o jato anglo-francês prometia muito mais, como conta a revista Flight Magazine. O Concorde seria uma revolução no transporte aéreo, encurtando as distâncias como nem mesmo a era do jato havia conseguido.



O protótipo de matrícula F-WTSS era um dos dois construídos para testar os diversos avanços tecnológicos do projeto – o outro era inglês e de prefixo G-BSST. Foi o ápice de uma longa e complexa gestação que envolveu franceses e ingleses num acordo para que o avião pudesse de fato existir.

Apesar disso, o primeiro voo do Concorde só ocorreu muito tempo depois, em 2 de março de 1969. Até então, a situação do projeto era relativamente próspera. Embora levasse poucos passageiros e consumisse muito combustível graças aos quatro motores turbojato com pós-combustor Rolls-Royce/Snecma Olympus, o Concorde era muito veloz, capaz de voar em cruzeiro acima de Mach 2 (mais de 2.000 km/h).

Parecia a fórmula perfeita para um futuro breve e a certeza que o cenário nos aeroportos seria povoado daquele belo avião de asas em delta e bico capaz de ser abaixado para facilitar a visão dos pilotos. Mas então, em 1973, a crise do petróleo tornou o supersônico inviável economicamente. Com o valor do querosene nas alturas, os custos de operação do jato praticamente restringiram seu uso para algumas rotas com demanda suficiente para o preço das passagens.

Pouso mais cedo que o horário da decolagem

De cerca de 100 compromissos de compra, o Concorde acabou sendo “vendido” apenas para a Air France e para British Airways, companhias dos países construtores e que adquiriam 7 aviões cada – houve ainda outros seis aviões entre protótipos e pré-série. A entrada em operação ocorreu mais de nove anos após a primeira apresentação com dois voos, um deles entre Paris e o Rio de Janeiro (com escala em Dakar). Além da questão econômica, o Concorde acabou vítima da guerra comercial dos americanos que, após desistirem de um projeto semelhante, “inventaram” uma lei que restringia os voos supersônicos dentro do país, baseada num suposto clamor popular.

Ainda assim, o jato teve uma longa e bem sucedida carreira como opção veloz para ligar Nova York a Londres e Paris. Altos executivos, políticos e celebridades viraram seus principais clientes, capazes de pagar por um bilhete que encurtava uma viagem de cerca de 8 horas em apenas 3 horas e meia – e que era capaz de pousar antes da hora de decolagem quando partia da Europa, por conta da diferença de fuso horário e do fato de o Concorde ser mais veloz que a rotação da Terra.

Concorde da Air France no aeroporto do Galeão em 1976 (Helio Mendes Salmon)

Concorde da Air France no aeroporto do Galeão em 1976: Rio foi um dos primeiros destinos do supersônico (Helio Mendes Salmon)

A aposentadoria da aeronave era uma questão de tempo no final da década de 1990 mas o acidente fatal de julho de 2000 no Aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, que derrubou o exemplar de prefixo F-BTSC encurtou esse tempo. Embora modificações para proteger os tanques de combustível tenham sido executadas nos exemplares restantes, o Concorde acabou sendo retirado de serviço em 2003.

Se o seu estilo inconfundível ainda remetia ao futuro, o Concorde havia envelhecido internamente. Era um avião analógico num mundo digital, poluente frente a jatos com motores turbofan econômicos e nem mesmo seu trunfo, o tempo, já não fazia tanta diferença em aeronaves subsônicas com classes executivas confortáveis e capazes de permitir aos passageiros trabalhar durante o voo.

Certamente não era esse o futuro que imaginavam os que testemunharam a primeira aparição do Concorde meio século atrás.

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