Cada unidade do B-2 Spirit custou aos EUA cerca de US$ 2,1 bilhões (USAF)

O mês de novembro de 1988 nunca será esquecido na história da aviação. No espaço de apenas alguns dias dois aviões secretos foram revelados pelos Estados Unidos, ambos pioneiros na tecnologia furtiva (stealth), que compreendia uma série de soluções para reduzir sua assinatura de radar.

O primeiro deles foi o F-117A, avião de ataque projetado pela famosa divisão Skunk Works da Lockheed Martin. Já se sabia da existência do avião, que era chamado informalmente de F-19, mas ninguém fazia ideia de como ele seria até que o Pentágono publicou uma imagem da aeronave no dia 8 de novembro.


Pouco clara, a foto causou espanto, mas explicou pouco sobre aquele avião negro, com superfícies facetadas e forma inédita. Como se soube depois, o F-117 já estava em serviço há cerca de cinco anos, e seria usado pela primeira vez no Panamá no ano seguinte.

Ainda tentando absorver a revelação, a comunidade aeronáutica foi surpreendida novamente duas semanas depois. Em 22 de novembro, a Força Aérea dos EUA (USAF) revelou o B-2 Spirit, primeiro bombardeiro stealth da história numa cerimônia em Palmdale, Califórnia, onde fica a “Planta 42”, espécie de base aérea onde são fabricados aviões de projeto secreto.

Mais uma vez os conceitos básicos de voo eram jogados no lixo ao ver aquela imensa asa voadora de superfície cinza e preta deixar seu hangar. Era a primeira oportunidade de ver em detalhes uma aeronave capaz de evitar a detecção por radares, mas a USAF não permitiu que os convidados tivessem acesso à parte traseira da “arraia”, cuja forma também remetia ao exótico peixe.

Ao contrário do F-117, o B-2 ainda estava em fase de desenvolvimento e só voaria pela primeira vez meses depois, no dia 17 de julho de 1989, portanto há exatos 30 anos.


Em 22 de novembro de 1998, a USAF apresentou o B-2 ao público (USAF)

Avião mais caro da história

Embora o final da década de 80 já vislumbrasse rupturas na Cortina de Ferro, o bloco de países socialistas capitaneado pela União Soviética, o programa do B-2, de responsabilidade da Northrop (hoje Northrop-Grumman), seguia em frente com planos ambiciosos.

A fabricante havia sido contratada para produzir nada menos que 132 bombardeiros a um custo de US$ 737 milhões cada, uma soma assustadora, mas que mais tarde ficou ainda maior – cogita-se que cada B-2 custou a bagatela de US$ 2,1 bilhões em valores de 1997, ano em que o avião entrou em serviço. Após o fim da Guerra Fria e com a escalada de preços, o governo dos EUA reduziu a encomenda para apenas 21 aeronaves.

Apesar do alto custo, o B-2 Spirit desempenhou missões importantes para os norte-americanos como no Kosovo em 1999 (seu batismo de fogo) e no Afeganistão. Graças às acomodações internas, o bombardeiro pode permanecer no ar por vários dias se preciso, sendo reabastecido no ar a cada seis horas. Em 2013, sua missão mais longa durou mais de 44 horas.

Dos 21 aviões construídos apenas um foi perdido em um acidente em Guam em 2008. Por um problema em seus sensores, os computadores de bordo fizeram uma leitura errada e acabaram precipitando a aeronave após a decolagem – os dois ocupantes ejetaram em segurança. Dois anos depois, outro B-2 pegou fogo no solo, mas foi recuperado e voltou a voar três anos mais tarde.

Aposentadoria a caminho

Ironicamente, mesmo sendo o mais avançado avião conhecido da USAF, o B-2 deverá ser retirado de serviço na próxima década. Seu alto custo operacional não se justifica mais e por isso o Pentágono autorizou o desenvolvimento de um novo bombardeiro stealth, o B-21, também construído pela Northrop-Grumman. O objetivo é fazer o “Raider”, como será chamado, um avião mais eficiente e capaz e, sobretudo, bem mais barato. Mas certamente o B-21 não terá o mesmo impacto que seu irmão mais velho causou 30 anos atrás.

O único B-2 perdido: falha na decolagem destruiu o bombardeiro em 2008 (Reprodução)

Confira alguns fatos sobre o B-2

1 – O B-2 foi um dos vários programas que a USAF lançou para substituir o B-52. Mas o veterano bombardeiro continua na ativa e deve ter sua vida útil esticada até mesmo depois da aposentadoria do B-2.

2 – Foi o presidente Jimmy Carter que deu luz verde para o B-2 na década de 70, o que acabou causando a mudança do B-1 para o padrão B-1B.

3 – O conceito de asa voadora foi uma obsessão de Jack Northrop, criador da fabricante, que testou vários aviões no passado, sem conseguir viabilizar nenhum deles. Northrop, no entanto, morreu em 1981 sem ver o B-2 voar.

4 – Ao contrário das superfícies facetadas do F-117, o B-2 utiliza uma técnica furtiva de curvas com materiais absorventes de ondas de radar. Também esconde a entrada de ar dos motores por cima das asas e dispensa superfícies de controle verticais. Em vez disso, utiliza ailerons bipartidos para prover o movimento de guinada.

5 – A seção transversal de radar do B-2 é tão pequena que é como se um pequeno pássaro fosse detectado pelas antenas.

6 – O custo operacional do B-2 é o dobro do B-52 e B-1, algo como R$ 500 mil reais por hora de voo.

7 – O B-2 possui toalete, cama e um pequeno forno para preparar refeições quentes. Cada um dos dois ocupantes se reveza em missões de longa duração.

8 – Para conseguir voar, o B-2 faz uso de um sistema quádruplo fly-by-wire.

9 – O B-2 tem um peso máximo de decolagem de 170 toneladas, semelhante a um Boeing 767.

10 -Diz-se que cada um dos B-2 tem sua própria “personalidade”, exigindo procedimentos de voo e de manutenção específicos. Há até uma lenda que afirma que um deles chegou a ligar seus motores sozinho em uma ocasião.

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