Boeing 767-300 da Boliviana de Aviación (BoA): aviação comercial nos tempos de Morales se expandiu (Venkat Mangudi)

Presidente mais longevo na história da Bolívia, Evo Morales governou a nação vizinha do Brasil nos últimos 13 anos até renunciar ao cargo nesse domingo (10). Político da chamada “esquerda bolivariana”, Morales acumulou uma série de polêmicas durante seu regime, especialmente por ter concorrido e vencido as quatro últimas eleições presidenciais do país.

A vitória de Morales para o quarto mandato consecutivo em outubro, porém, vinha sendo questionada pela Organização dos Estados Americanos (OEA), que apontou indícios de fraudes no processo, o que levou a uma série de protestos violentos pelo país que culminaram com a renúncia do político, que por sua vez alegou ter sofrido um golpe cívico promovido por seus opositores.


Mas em meio a tantos espinhos também constataram-se avanços na Bolívia durante seu período à frente do governo. Segundo dados do Banco Mundial, nos últimos 10 anos a economia do país vinha crescendo a um ritmo de 5% ao ano e a linha de pobreza caiu de 63% para 35% nesse período.

O aumento da renda da população boliviana impulsionou significativamente a aviação comercial no país, que viu o movimento de passageiros nesse modal praticamente triplicar durante os anos em que Morales esteve no poder.

De acordo com dados da Organização da Aviação Civil Internacional (ICAO), órgão vinculado à ONU, em 2006, quando Evo Morales assumiu a presidência, foram transportados cerca de 1,4 milhão de passageiros no país. Em 2018, esse número saltou para 4,1 milhões – ainda assim um movimento modesto se comparado ao Brasil, onde as empresas aéreas transportaram mais de 102 milhões de passageiros no ano passado.

O número de passageiros transportados na Bolívia desde 2006: crescimento nos últimos anos  (ICAO)

Socialista com inspiração capitalista

Com mais passageiros dispostos a viajar, mais companhias aéreas surgiram na Bolívia, entre elas a EcoJet, fundada em 2013, e a Boliviana de Aviación (BoA), criada em 2007 pelo próprio governo boliviano e que hoje é a maior do setor no país.

Outra empresa boliviana que ganhou força durante o governo de Morales foi a Amaszonas Línea Aérea, renomeada recentemente como Amas Bolivia, e que atualmente é a maior companhia aérea privada da Bolívia.

É interessante observar que o crescimento da aviação comercial na Bolívia aconteceu por meio de empresas particulares e companhias estatais, mesmo sob a batuta de um governo socialista e que teoricamente deveria barrar iniciativas privadas para priorizar as estatais. Ainda assim, a frota de aeronaves, embora bem mais atual, ainda é bastante antiga se comparada a de outros países vizinhos.

Por outro lado, foi durante seu governo que a Lamia, empresa de voos charter surgida originalmente na Venezuela, conseguiu autorização para oferecer serviços no continente. O fatídico voo 2933, que transportava o time de futebol da Chapecoense há três anos, e caiu por falta de combustível na Colômbia colocou em xeque as autoridades de aviação bolivianas que permitiram que o jato BAe 146 decolasse com menos combustível do que o necessário para voar entre Santa Cruz de la Sierra e Medellín.

O primeiro E190 da Amas Bolívia: maior companhia aérea privada do país (Embraer)

As principais companhias aéreas da Bolívia

Boliviana de Aviación (BOA)

É a sucessora do Lloyd Aereo Boliviano, criada pelo ex-presidente Evo Morales em 2007. Tem a maior participação na aviação do país e voa para Madri, na Europa, e Miami, nos EUA, além de São Paulo, Buenos Aires, Iquitos e Salta, na América do Sul. Possui uma frota de 23 jatos, a maior parte deles Boeing 737 (17) incluindo seis modelos NG. Há também dois CRJ-200 e quatro 767-300 para voos internacionais.

Amas Bolívia

Até pouco tempo chamada de Amaszonas, a companhia é que mais cresce no país. Acaba de receber dois Embraer E190 que estão sendo usados em voos no continente, inclusive em rotas para o Brasil em breve. Além deles, possui seis CRJ-200 e dois turbo-hélices Dash 8.

Ecojet

A Ecojet voa internamente na Bolívia com quatro Avro RJ85 em rotas a partir de Cochabamba e Santa Cruz de La Sierra. Foi fundada em 2013 por investidores privados.

Um Avro RJ70 da TAMep, empresa que ressuscitou os serviços da Transporte Aéreo Militar da Força Aérea Boliviana

TAMep

Em março deste ano, o governo boliviano autorizou que a TAM Empresa Publica passasse a oferecer voos comerciais no país. Tratava-se de uma tentativa de recolocar a TAM (Transporte Aéreo Militar) em atividade após a companhia suspender seus voos em julho do ano passado.

Divisão da Força Aérea Boliviana, a TAM tinha como missão oferecer voos para destinos mais pobres do país. Com um frota que incluía aviões com mais de 30 anos como 727, 737 e o BAe 146, a empresa acabou resgatando apenas o jato inglês na nova denominação. Mesmo assim, tem passado por dificuldades para funcionar.

Antigas companhias aéreas bolivianas

Lloyd Aereo Boliviano

A LAB foi uma das companhias aéreas pioneiras no mundo, tendo sido fundada em 1925, quase dois anos antes da Varig. Embora tenha sido criada por um empresário, a empresa foi nacionalizada em 1942 e teve uma atuação discreta no continente por muitos anos. Nos anos 90, o governo do país decidiu privatizá-la e a VASP, então sob comando da família Canhedo, assumiu seu controle.

Nos anos seguintes, a companhia expandiu seus serviços e recebeu aviões maiores, mas em 2001 suas ações foram vendidas para empresários bolivianos. Endividada, a empresa acabou suspendendo seus voos em 2007, mas até hoje há movimentos locais tentando resgatá-la. Até mesmo seu site ainda está no ar.

Aerosur

Nos anos 90, a pequena Aerosur foi fundada como companhia regional já aproveitando a desregulamentação da aviação na Bolívia. Seu crescimento foi veloz e dez anos depois ela já havia tomado grande espaço da LAB, introduzindo os primeiros aviões com classe executiva em voos locais.

Com o fim da LAB, a Aerosur passou a ser a maior companhia aérea do país, expandindo sua atuação e recebendo aeronaves mais novas e até mesmo um Boeing 747-400 arrendado da Virgin Atlantic. Sua malha de voos internacionais incluía cidades como Milão, Munique, Barcelona e Washington. No entanto, em 2012, a Aerosur faliu deixando funcionários sem salários e passageiros com bilhetes comprados sem voo.

Nos seus tempos áureos, a Aerosur chegou a voar com um 747-400 alugado (Eddie Heisterkamp)

Aerocon

Foi uma pequena companhia regional que operou entre 2005 e 2015 com aviões Farchild Metroliner.

Aerolineas Sudamericanas

Com apenas um velho Boeing 727-200, a Aerolineas Sudamericanas foi criada em 2008, mas voou por apenas alguns meses.

Northeast Bolivian Airways

Também conhecida como NEBA, a companhia boliviana foi criada em 1970 e voou até 2006. Seu histórico de aeronaves chega a ser irônico: na década de 70 voava com aviões a hélice com mais de 20 anos e em 1990 estreou um voo para Miami com um Boeing 707. Chegou a ter jatos 737, 757 e um L-011 TriStar que estava armazenado nos EUA anos atrás.

Lamia

Nascida na Venezuela e posteriormente ganhando uma subsidiária boliviana, a Lamia ganhou notoriedade mundial por razões tristes. Focada no segmento de voos fretados, a empresa era dona do jato BAe 146 que vitimou 70 dos 77 ocupantes do voo que levava o time de futebol da Chapecoense para a final da Copa Sul-Americana em novembro de 2016. Após as investigações das falhas do acidente, o governo boliviano cassou sua licença de voo dias depois.

O acidente com o avião da LaMia na Colômbia foi o mais grave do ano, com 71 mortos (Graham)

Jato da Lamia que vitimou 70 pessoas, incluindo quase toda a equipe da Chapecoense (Graham)

Com colaboração de Ricardo Meier.

Airway deixa claro que não apoia qualquer ideologia política e quis com esse artigo apenas mostrar o cenário da aviação comercial na Bolívia durante os mandatos do ex-presidente Evo Morales. Comentários com conteúdo ofensivo, independentemente de orientação política, não serão publicados.

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