Relíquia dos anos 1930, o DC-3 ainda estavam em operação no Peru na década de 1980 (Foto – Faucett)

Relíquia dos anos 1930, o DC-3 ainda estavam em operação no Peru na década de 1980 (Foto – Faucett)

Por mais de 20 anos trabalhei como fotógrafo de esporte e isso me levou a voar tanto que já devo até ter superado alguns comandantes novatos. Minha primeira viagem de avião foi a trabalho, para Curitiba, PR, em 1981 e não parei mais. Do medo veio a admiração e agora, aos 56 anos, o sentimento mais presente dentro de aviões são dores mesmo! Graças a uma nova ordem mundial as pessoas viajam mais, voam mais e, quem diria, voar ficou mais barato do que viajar de trem na Europa e Estados Unidos.

Sou do tempo do saudoso Lockheed L-188 Electra II das companhias Varig e Cruzeiro, avião silencioso como uma maritaca nervosa e que vibrava mais que torcida do Flamengo. Mesmo assim era uma delícia. Tinha comissárias realmente elegantes, bonitas, porém com sex appeal de freira marista. Tínhamos refeição! Isso mesmo, comida! Carne, frango ou massa. E comíamos como pessoas civilizadas, usando garfo e faca de aço inox da Fracalanza ou Tramontina e não em copos e talheres de plásticos como presidiários de Bangu 1.


Naquela época fumava-se nos aviões e uma das ingenuidades protocolares era dividir a aeronave em fumantes e não-fumantes, na crença infantil de que fumaça reconhece fronteiras. O avião todo fedia a cinzeiro sujo e aprendi desde cedo a escolher a área de fumantes, porque não-fumante sempre foi uma espécie muito chata e sem assunto.

No caso do Electra havia ainda um espaço dentro da aeronave, lá na cauda, que eu chamava de “chiqueirinho” e era isolada por uma porta de vidro. Ali dentro podia-se fumar até charuto, coisa que só fiz em uma ocasião para me vingar de um ressacado colega que passou o dia anterior infernizando nossas vidas, graças a um porre pseudo fatal de Cointreau. Sabe-se há séculos que a única prescrição médica válida para ressaca de qualquer licor é a eutanásia, mas optei pelo charuto para saber até onde uma pessoa seria capaz de enjoar a bordo. Tudo em nome da ciência!

Também voei em coisas estranhas, como um Douglas DC-8 da Faucett (assim mesmo, com “u”), uma companhia aérea que operava no Peru. Depois de atravessar o país andino de sul a norte, na viagem de volta entrei na aeronave e percebi que se tratava do mesmo avião, porque os nomes rabiscados nas poltronas eram os mesmo… O avião era muito confortável, mas o voo foi tenso. Logo de cara, quando o táxi parou na porta do aeroporto de Arequipa perguntei a um motorista se faltava muito para chegar ao aeroporto, mas ele apontou para a porta e só descreveu: “é aqui, já chegamos!”.

O belíssima DC-8 da companhia aérea peruana “Faucett”, com “U” mesmo

O belíssima DC-8 da companhia aérea peruana “Faucett”, com “U” mesmo

O fato de ter porcos e carneiros pastando no que deveria ser a área de embarque não me assustou mais do que a visão de um DC-3 taxiando. Ao entregar a bagagem só chequei com a comissária se aquela aeronave era do museu, de coleção, ou algo assim, mas ela riu e explicou que era de uso mesmo. Gelei! Mas fiquei aliviado quando vi um DC-8 – aquele único da companhia – parado na “pista”.

Quer saber como é decolar de Arequipa? Pegue um carro, acelere até a velocidade máxima e vá em direção a um poste na esperança cega de que o poste irá sair da frente. Pela escotilha eu fui vendo as cordilheiras se aproximando e me perguntando “quando esse cara vai desviar?”. Até que meu estômago (e tudo que estava dentro) foi centrifugado e passamos raspando rumo à Cuzco. Uma experiência dignificante da alma!

Em termos de susto a bordo nada se compara a uma viagem de helicóptero que fiz nos anos 90 sobre a Ilha do Marajó, PA. Acho que não existe nada mais selvagem no Brasil do que aquela ilha fluvio-marítima na Amazônia. Tudo lá é uma explosão de vida e natureza.

Minha missão era fotografar um rali que se realizava todos os anos com largada e chegada na capital Soure. Para isso foi alugado um helicóptero Bell, já sem as portas, próprio para fotografia. Não sou supersticioso nem guardo medos infantis de altura ou de voo, mas dessa vez devo admitir que foi punk!

Na noite anterior ao voo fui até o bar do hotel e vi um jovem vestido com um macacão laranja, desses de piloto. Ao lado dele estava um senhor idoso, comendo amendoim e tomando uma cerveja. Esse senhor tremia muito, como se tivesse Parkinson e o jovem bebia suco de tomate, enquanto olhava um mapa. Concluí que era o piloto e fui falar com ele.

– Oi boa noite, é você que vai nos levar amanhã para as fotos aéreas?

O rapaz me olhou surpreso, deu uma risada e explicou:

– Não, eu sou o mecânico, o piloto é ele! E apontou para o idoso tremeliquento!

Foi minha vez de começar a tremer! Como Parkinson não é contagioso, era medo mesmo!

A noite foi tensa, mas nada comparado ao voo. Coloquei o harness (aquela cadeirinha para fazer escalada e rapel), me prendi com cordas e mosquetões e decolamos. De fato o jovem ficava só do lado enquanto o idoso segurava o manche e tremia sem parar.

Sobrevoar a Ilha do Marajó é uma experiência inesquecível. São milhares de metros quadrados de área verde e as referências se repetem: uma casinha, cachorros, búfalos, lagoas, casinha, búfalos, lagoa e tudo parece tão igual, mas tão igual que não demorou muito para me dar conta que o piloto estava completamente perdido.

Pelo fone de ouvido percebi que estava mesmo voando em círculos, apesar de um aparelho de GPS bem no meio do cockpit. Foi quando o piloto viu um casebre e decidiu pousar para uma cena insólita: foi perguntar! Nem mesmo o aparelho de GPS foi capaz de nos ajudar, tivemos de recorrer ao mais antigo sistema de navegação do mundo, o PPS: para pra “sinformar!”

Tudo explicado e anotado alçamos voo novamente com a proa no rumo certo até encontrarmos a fazenda de onde partiriam os carros de rali. As fotos ficaram ótimas, o rali nunca mais se repetiu por questões de logística e anos mais tarde fiquei sabendo que o meu piloto septuagenário havia falecido poucos meses depois, de enfarte fulminante, mas não estava voando!