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Menos de 10 países no mundo estudam a tecnologia do motor scramjet para veículo hipersônicos (aviacao.org)

Você não leu errado, o Brasil está sim desenvolvendo uma aeronave hipersônica! O projeto do veículo não tripulado capaz de voar a mais de 6.000 km/h é obra do Instituto de Estudos Avançados (IEAv), divisão de pesquisas do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) da Força Aérea Brasileira (FAB), em parceria com a empresa Orbital Engenharia, ambos de São José dos Campos (SP).

Nesta mês, a Orbital entregou ao IEAv a documentação do “Projeto Detalhado do Demonstrador Tecnológico SCRamjet 14-X S”. Essa é a última fase contratual do projeto referente ao desenvolvimento de um motor hipersônico aspirado, o scramjet, necessário para fazer veículos aéreos passarem dos 6.000 km/h, utilizando o próprio oxigênio atmosférico para a queima do combustível.


“Finalmente estamos a ponto de dizer que alcançamos o estado esperado, como projetado, de todos os subsistemas do demonstrador Scramjet 14-X S, os quais ainda vão ser revisados, a fim de que então possamos iniciar a fabricação, qualificação e integração, o que ocorrerá ainda neste ano de 2019”, comenta o gerente do projeto 14-X no IAEv, Israel Rêgo.

A revisão do projeto será realizada ainda neste mês pela Orbital em uma série de reuniões com especialistas do próprios IEAv, dos Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), do Centro de Lançamento Alcântara (CLA), do Instituto de Fomento e Coordenação Industrial (IFI) e do DCTA. O desenvolvimento do 14-X foi iniciado em 2007.

Para o diretor do IEAv, Coronel Aviador Lester de Abreu Faria, o projeto 14-X, batizado desta forma em homenagem ao 14-Bis de Santos Dumont, vai colocar o Brasil em um seleto grupo de países. “Estamos cada vez mais perto de romper essa barreira tecnológica da propulsão hipersônica, que hoje é diferencial no mundo. Com a superação dessa etapa, o Brasil se coloca entre as maiores e mais desenvolvidas potências mundiais, dando a demonstração de que o domínio de alta tecnologia e de tecnologias disruptivas fazem parte de nossas capacidades e competências”, avalia o oficial.

O modelo 14-X em escala reduzida usado para testes em túneis de vento (FAB)

O modelo 14-X em escala reduzida usado para testes em túneis de vento (FAB)

A FAB planeja o primeiro ensaio de voo em 2020. Os objetivos dos testes iniciais, segundo a força aérea, é a “demonstração e operacionalização da tecnologia de propulsão hipersônica aspirada”.


Motor simples, mas difícil de ligar

Diferentemente de motores a jato atuais, o motor scramjet (do inglês, Supersonic Combustion Ramjet) não possui partes móveis, como compressores e turbinas que comprimem o ar nas câmaras de combustão.

(GreyTrafalgar/Creative Commons)

Comparação de um motor turbofan tradicional com um scramjet, que não precisa de compressores e turbinas para aumentar a pressão do ar (GreyTrafalgar/Creative Commons)

Em termos mecânicos, o scramjet tem uma concepção considerada até simples, o desafio é ativá-lo. O motor hipersônico só “liga” em velocidades altíssimas, pois somente desta forma é possível sugar a quantidade massiva de oxigênio necessário para realizar a queima com combustível e assim gerar a super-propulsão.

O scramjets são propostos para um dia impulsionarem os “aviões espaciais”, aeronaves capazes de decolar na Terra, viajar até o espaço e retornar, algo como o que os ônibus espaciais da NASA faziam, mas com custos muito menores. A motorização ainda é proposta para aviões comerciais hipersônicos, como no projeto apresentado recentemente pela Boeing.

Aviões comerciais hipersônicos podem surgir no mercado a partir da década de 2030 (Boeing)

A nova tecnologia também está começando a surgir em mísseis de cruzeiro. Os principais países nesse campo são os Estados Unidos, Rússia, China e Índia. Outras nações que também estudam os scramjets são o Reino Unido, Austrália e Alemanha.

Segundo o instituto de pesquisas avançadas da FAB, o scramjet apresenta vantagens como ganho de espaço de carga útil, redução do peso total de decolagem e da quantidade de combustível necessário para a operação da aeronave de aplicação civil ou militar em velocidade hipersônica.

Até hoje poucos países testaram veículos hipersônicos, mas essa é uma corrida que remonta desde os anos 1960. A primeira aeronave a alcançar a velocidade hipersônica, que começa a partir 6.150 km/h (cinco vezes a velocidade do som) foi o protótipo North American X-15, desenvolvido pela força aérea dos EUA e a NASA. Neil Armstrong, que mais adiante se tornaria o primeiro homem a pisar na Lua, foi um dos pilotos de testes do X-15. O motor do avião, porém, era um foguete.

O X-15 foi testado entre 1962 e 1968; a velocidade máxima alcançada foi de 7.274 km/h (NASA)

O X-15 foi testado entre 1962 e 1968; a velocidade máxima alcançada foi de 7.274 km/h (NASA)

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