Não tem comissário: os passageiros são recebidos no avião pelo próprios pilotos da TwoFlex (Thiago Vinholes)

Experimentando uma modalidade de negócios bem diferente na aviação, a TwoFlex estreou nesta segunda-feira (27) no aeroporto de Congonhas, em São Paulo (SP). A primeira rota da empresa no terminal paulistano é uma ponte aérea Rio-São Paulo “alternativa” com destino ao aeroporto de Jacarepaguá, na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio de Janeiro. A aeronave utilizada na rota é o monomotor Cessna Grand Caravan. O Airway participou da viagem inaugural da companhia.

A TwoFlex foi uma das beneficiadas durante o processo de redistribuição de slots em Congonhas que pertenciam à Avianca Brasil. Embora não tenha recebido nenhum horário, a companhia foi autorizada pela ANAC a operar na pista auxiliar do aeroporto. Outros voos da empresa a partir de Congonhas têm como destino Franca e Barretos, no interior de São Paulo.


O avião da TwoFlex pode receber apenas nove passageiros e cada um pode despachar bagagens de até 23 kg e levar outra mala de mão de 10 kg na cabine. Apesar de embarcar poucas pessoas, o transporte até a aeronave foi realizado em um ônibus normal do aeroporto com dezenas de assentos.

Vista espetacular e balanço inevitável

Para quem está acostumado a voar em jatos de companhias tradicionais, viajar no Caravan pode ser uma aventura. Os passageiros são recebidos na aeronave pelos próprios pilotos e para entrar na cabine é necessário quase se agachar até chegar ao assento. O voo também não tem serviço de bordo. Em vez disso, o avião leva um cooler com água gelada e pacotinhos de biscoito, por sinal os mesmos servidos pela Gol, que é parceira comercial da TwoFlex.

Como o Caravan é um avião pequeno e sem divisões na cabine, os passageiros têm um visão frontal do voo e podem acompanhar todo o trabalho dos pilotos. O monomotor da Cessna ainda tem janelas bem maiores que as dos jatos comerciais. Parece até um aquário com asas. Vale lembrar que o avião também não tem toalete.

Caravan da TwoFlex na fila para decolar no aeroporto de Congonhas (Thiago Vinholes)

Se a cabine com grandes janelas é um deslumbre para a visão dos passageiros, os ouvidos por outro lado podem sofrer um pouco durante o voo da TwoFlex. Como é natural em aviões turbo-hélice como o Cessna, o ruído do motor invade a cabine, que tem pouco isolamento acústico. O barulho já era alto mesmo enquanto o Caravan estava taxiando e vai ao máximo na corrida de decolagem.

No voo de cruzeiro, o Caravan diminui a aceleração e o nível de ruído na cabine é parcialmente reduzido. É possível conversar normalmente na aeronave, embora seja necessário elevar um pouco o tom de voz. Sortudos são os pilotos que utilizam fones que bloqueiam a barulheira do avião.

Outra parte que os passageiros precisam ter em mente ao voar no Caravan é que turbulências são praticamente inevitáveis nesse avião – ou qualquer outro monomotor de pequeno porte. Por ser um avião turbo-hélice e sem cabine pressurizada, o Cessna não alcança grandes altitudes e voa numa faixa com maior pressão atmosférica, o que também significa a possibilidade de enfrentar ventanias. Os jatos comerciais evitam esse ambiente voando mais rápido e bem mais alto, a cerca de 800 km/h e 30.000 pés (9.150 metros) de altitude. No voo de cruzeiro para Jacarepaguá, era possível ver no painel do avião os marcadores em 130 nós (240 km/h) e 9.000 pés (2.740 metros).

Voando nessa altitude é possível ter uma vista panorâmica do exterior e o celular também tem sinal durante boa parte da viagem. A rota para o Jacarepaguá em especial tem paisagens muitos bonitas, sobrevoando a Serra do Mar e Ilhabela em São Paulo e o litoral sul do Rio do Janeiro, passando por Ilha Grande e a Restinga da Marambaia, onde o avião inicia o procedimento de descida. É uma viagem memorável e que rende fotos espetaculares.

O voo da TwoFlex até a Barra da Tijuca durou cerca de 1h20 e o retorno levou 1h40. Apesar de pequeno, o aeroporto de Jacarepaguá tem um certo burburinho. O terminal com vocação para aviação executiva recebe um grande volume de operações de helicópteros que transportam funcionários para as plataformas de petróleo da Petrobras no litoral carioca.

No retorno para Congonhas, a aeronave foi recebida pelo tradicional “batismo” com jatos d’água dos caminhões de bombeiro do aeroporto, marcando a estreia da TwoFlex no terminal.

Quem é a TwoFlex?

Com sede em Jundiaí, mas com bases espalhadas por todo o Brasil, a TwoFlex está no mercado desde 2013. A empresa foi criada a partir da fusão entre a Two Táxi Aéreo e a Flex Aero Táxi Aéreo. Com os negócios combinados, o grupo formou a maior frota de aeronaves Cessna Caravan do Brasil, com 18 aparelhos e mais dois a caminho, em versões para passageiros e carga.

A TwoFlex começou suas atividades com voos charter, mas logo ampliou serviços oferecendo transporte regular de passageiros. A empresa operou até junho deste ano no programa Voe Minas Gerais, com voos de Belo Horizonte (no aeroporto da Pampulha) para cidades no interior de Minas Gerais. Hoje a empresa, em parceria com a Gol, tem voos para as regiões Norte e Centro-Oeste do Brasil e no estado do Paraná.

O Caravan da TwoFlex foi recebido em Congonhas pelo tradicional batismo com jatos d’água (Thiago Vinholes)

A operação entre Congonhas e Jacarepaguá, no entanto, é a rota que a TwoFlex tem maiores expectativas. “Esse voo é direcionado para os moradores da Barra da Tijuca e que não querem perder tempo se deslocando até os aeroportos do Galeão ou Santos Dumont”, disse Rui Aquino, presidente da TwoFlex, durante o voo de volta para Congonhas.

Aquino foi presidente da Táxi Aéreo Marília (empresa da família Amaro que originou a TAM Linhas Aéreas) e tem como sócio na TwoFlex o atual presidente da operadora de turismo CVC, Luiz Eduardo Falco.

“Estamos repetindo justamente o que a TAM fez em seus primórdios na aviação regional, quando também voava com o Cessna Caravan. Com o passar do tempo e a chegada de mais passageiros, a TAM foi comprando aviões maiores e deixou a aviação regional”, relembrou o presidente da TwoFlex.

A TwoFlex opera um modelo de negócios conhecido na aviação como Essential Air Services (Serviços Aéreos Essenciais). A principal inspiração da empresa nesse ramo é a Cape Air, dos EUA.

“A Cape Air tem a maior frota de Cessna 402 do mundo, com mais de 80 aeronaves, e opera em cidades pequenas nos EUA. São voos muito concorridos e as pessoas pagam até US$ 600 para embarcar nos aviões que partem de Nova York”, comentou Aquino.

A Cape Air opera quase 100 aeronaves ligando grandes centros e pequenas cidades pelos EUA (redlegsfan21)

O voo da TwoFlex entre Congonhas e Jacarepaguá custa a partir de R$ 607, valor que o presidente da empresa considera razoável, apesar de ser mais caro que um bilhete da ponte aérea com outras companhias (dependendo da antecedência que a compra é realizada).

Primeiro passageiro da TwoFlex para Congonhas, o empresário Rodrigo de Paoli é o cliente modelo da empresa. Morador da Barra da Tijuca e sem tempo a perder, ele revelou que comemorou ao ficar sabendo sobre o novo voo por Jacarepaguá. “É muito prática a partida por Jacarepaguá, vou ganhar muito tempo nessa viagem. Ir de carro da Barra para o Galeão ou o Santos Dumont pode levar umas duas horas”, disse Paoli, que também comprou um bilhete para voltar de Caravan.

O voo da TwoFlex para o Rio de Janeiro conta com quatro frequências diárias, duas pela manhã e outras duas até o final da tarde, oferecendo 72 assentos por dia no trecho. Os bilhetes são adquiridos exclusivamente pelos canais de venda da Gol. “Uma pessoa pode sair da Barra de manhã e retornar na hora do almoço”, disse o presidente da TwoFlex.

Perguntado sobre a desconfiança do público de voar em aviões pequenos e monomotores, Aquino salientou que o Grand Caravan é uma aeronave moderna e segura. “Estamos operando seguindo os mesmos critérios de segurança exigidos para os jatos comerciais. O Caravan é um avião consagrado no mercado, com mais de 3.000 unidades produzidas e um baixo nível de acidentes no Brasil.”

O voo da TwoFlex entre Congonhas e Jacarepaguá de fato tem grande apelo para quem parte da Barra da Tijuca ou tem compromissos na região. O preço da passagem, apesar de alto, necessariamente não afugenta o público-alvo da companhia, que mira os moradores da zona oeste do Rio de Janeiro, uma das regiões mais abastadas da cidade.

Os passageiros só precisam estar preparados para um voo bem diferente das companhias tradicionais e que em certos momentos pode ser turbulento. Por outro lado, para quem gosta de voar esse balanço da aeronave é até confortável.

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