Conceito de drone embarcado da divisão Skunk Works

Conceito de drone embarcado da divisão Skunk Works

Muitos acreditam que o atual momento é o começo das operações com aeronaves não tripuladas em missões de guerra, mas os UAVs (Unmanned Aerial Vehicles ou VANTs – Veículos Aéreos Não Tripulados na lígua portuguesa) existem há quase 60 anos e já participaram de vários conflitos pelo mundo.

O Reino Unido já havia vislumbrado essa possibilidade de aeronave e modo de operação em 1957 quando o governo sugeriu substituir aeronaves pilotadas por mísseis guiados.


Por muito tempo, no entanto, os aviões remotamente controlados foram apenas projetos pouco efetivos, limitados pela eletrônica da época e até por um certo preconceito contra a ideia de substituir aviões tripulados por ‘aeromodelos gigantes e armados’.

Felizmente, essa mentalidade logo mudou com o passar do tempo e hoje eles estão cada vez mais assumindo papéis de protagonista no campo de batalha.

Drones, os antecessores dos UAVs

Uma das primeiras funções de aeronaves não-tripuladas foram assumidas pelo drones que serviram como alvos aéreos. Alguns modelos como bombardeiros B-17 e caças de combate como F6F e F-80 foram usados também em testes em voo para coletar informações em testes nucleares.

Depois do famoso incidente envolvendo o U-2 pilototado por Francis Gary Powers sobre Sverdlovsk na ex-União Soviética em maio de 1960, os Estados Unidos começaram um programa para desenvolver aeronaves drones de reconhecimento aéreo, conhecido como Red Wagon.

Teledyne Ryan Firebee

Teledyne Ryan Firebee

Esses primeiros drones foram denominados posteriormente como RPVs (Remotely Piloted Vehicles ou Veículos Remotamente Pilotados). A empresa americana Teledyne Ryan assinou um contrato para desenvolver uma versão de reconhecimento do seu alvo aéreo BQM-34A Firefly resultando no Firebee Model 147A ou “Lightining Bug” que teve ampliação de capacidade de combustível e um novo sistema de navegação. Os primeiros aparelhos Firebee foram utilizados sobre a China comunista no início da década de 1960 e lançados sob as asas de um DC-130 Hercules especialmente modificado.

Várias versões do Firebee foram empregadas transportando equipamentos para o cumprimento de missões de reconhecimento e de inteligência sobre o Vietnã do Norte durante a guerra sobre aquele país, e novas versões foram desenvolvidas para transportar chaff (limalha de alumínio para despistar radares inimigos com falso centroide) e sistemas de contra medidas eletrônicas (ECM) para supressão de defesas aéreas inimigas (SEAD) .

Entre agosto de 1964 e abril de 1975, a 100ª Ala de Reconhecimento Estratégico da USAF (força aérea americana) voou 3.435 missões com o Lightning Bug sobre o Vietnã. Nos primeiros dias do programa os RPV eram recuperados por para-quedas, mas em abril de 1966 a USAF empregou o Sistema de Recuperação Aérea (MARS) com 2.655 recuperações e 2.745 tentativas mal sucedidas.

Muitas das missões foram cumpridas em altitudes relativamente altas em que o clima frequentemente intervinha e ocorriam problemas para a captação de imagens de TV e com os sistemas de guiagem com baixa resolução.

O Ryan 147SC foi então desenvolvido para voar a baixas altitudes abaixo do alcance da bateria de radares e mísseis inimigos. Esse RPV cumpriu 1.651 missões no Vietnã com uma razão de retorno de 87,2%.

Essas missões provaram e validaram a efetividade dos UAVs em voos de reconhecimento e inteligência (SIGINT) e demonstraram ser plataformas versáteis permitindo operações sobre áreas sensíveis e ampliando o potencial político ordenando menos missões com emprego de humanos.

Lockheed M21-D21

Lockheed M21-D21

Drone supersônico

Na mesma época da guerra no Sudeste Asiático, o Lockheed D-21 fazia sua estreia como drone. Ele era uma aeronave de reconhecimento que podia voar com velocidades acima de Mach 3 e foi originalmente projetada para ser transportada e lançada pelo Lockheed M-21, um A-12 convertido e que depois foi reconvertido a SR-71A Blackbird. O supersônico possuía características furtivas e cumpriu quatro missões operacionais sobre a China com o codinome Senior Bowl, lançado de um Boeing B-52 Stratofortress antes de ser abandonado em 1971.

Enquanto isso, a US Navy (marinha americana) modificou um lote de BQM-34A com o MASTACS (Sistema de Aumento de Manobrabilidade para Simulação de Combate Aéreo Tático) e em 10 de maio dois drones voaram contra um par de McDonnell Douglas F-4 Phantom II conduzidos por qualificados pilotos de TOPGUN.

Os drones eram capazes de alcançar 6g em 3 segundos, recebendo o comando de manobra sem perder altitude enquanto os Phantom tripulados não conseguiam mantê-los travados na mira e os perdiam quando disparavam seus mísseis contra eles.

Israel revoluciona os UAVs

Aproveitando a experiência americana, Israel revolucionou a tecnologia com a operação de UAVs sobre o Vale de Bekaa no Líbano, em 1982. Os veículos aéreos não tripulados de Israel foram empregados em operações aéreas denominadas de “Mole Cricket 19” sendo utilizados para localizar, detectar e identificar mísseis superfície-ar, além de baterias de radares inimigos fornecendo informações que seriam vitais para aquele país retaliá-los e empregar de contramedidas.

Num dos ataques, os sírios dispararam 57 mísseis antiaéreos AS-6 contra os F-4 de Israel e aos F-15 Eagle e F-16 Fighting Falcon que os escoltavam, mas não foram acertados ou abatidos.

IAI Heron: israelenses utilizaram conceito em larga escala

IAI Heron: israelenses utilizaram conceito em larga escala

Uma nova mentalidade

Desta vez, os Estados Unidos é que repensaram as operações com os RPVs, após ver o trabalho dos israelenses. Durante a operação “Desert Storm” ou “Tempestade no Deserto”, na Guerra do Golfo em 1991, os UAVs foram operados completaram 522 missões totalizando 1.641 horas de voo com somente uma aeronave perdida,

Essas aeronaves remotamente pilotadas designaram alvos para o ataque dos bombardeiros B-52 e caças de ataque F-15E, além de cumprir missões de reconhecimento pós-ataque enquanto alguns UAVs foram empregados para apontar alvos para a artilharia do navio de guerra Wisconsin bombardear posições ao sul do Kuwait.
Numa ocasião, soldados iraquianos foram rendidos por UAVs americanos, que os circundavam, em um acontecimento único e que retratava o nível tecnológico destes aparelhos na época.

No início da Guerra do Golfo em 1991, os americanos aumentaram seu foco aos sistemas não tripulados com tecnologia já mais desenvolvida e mais capaz para aeronaves UAVs. Em particular o desenvolvimento e melhoramento na miniaturização de giroscópios em estado-sólido fizeram com que as plataformas fossem mais facilmente controladas enquanto melhorias nos sistemas de comunicação tornaram possível a transferência de dados digitais do comando da missão para o UAV, além do envio de imagens mais bem definidas e a grandes distâncias com o propósito de reconhecimento aéreo.

General Atomics MQ-1 Predator

General Atomics MQ-1 Predator

A Agência Central de Inteligência Americana (CIA) adquiriu um número de aeronaves UAVs de reconhecimento Gnat desenvolvidas pela empresa Leading Systems Amber antes de ser adquirida pela General Atomics. A CIA operou os seus Gnat na Albânia para cumprir missões sobre a Iugoslávia em 1994.

Melhorados e com um novo motor mais silencioso, os Gnat foram designados 750-45, e hoje é mais conhecido como M-Q1 “Predator” ou “Predador”. Doze destes novos modelos foram comprados pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos para o Projeto e Demonstração de Tecnologia e Conceito Avançado.

Dez anos depois, quando os Estados Unidos começaram uma longa campanha no Afeganistão, a USAF havia perdido 20 dos seus 60 Predators adquiridos, que foram mais vítimas de congelamento ou de imperícia dos operadores do que abatidos.

O Predator não fica limitado a apenas ao alcance das estações de controle, mas também pode ter conexão por satélite com a base de comando americana em qualquer lugar no mundo. Esta capacidade foi explorada na campanha do Afeganistão quando a CIA controlou os voos operacionais diretamente e remotamente de sua sede em Langley no estado da Virginia.

O Predator está apto a voar em altitudes acima de 7.500 metros com autonomia de 40 horas (incluindo 24 horas de operação autônoma da estação de controle a 805 km de distância da base), pode transportar casulos eletro-ópticos (EO) e infravermelhos (IR) e um radar de abertura sintética (SAR) além de receptor de comandos via banda-C ou dois na banda-Ku e UHF como datalinks para as comunicações com satélites.

Até então, os UAVs tinham mais a missão de orientar ataques e fazer reconhecimento, sem entrar em combate. Isso mudou quando o Predator completou testes com disparos de mísseis Hellfire em fevereiro de 2001. Nos anos seguintes os ‘Predadores’ foram empregados em missões de ataque como a que alvejou o líder do Al-Qaeda no Iêmen, enquanto outro teria a missão de destruir um bunker reforçado onde guardava um canhão que alvejou um helicóptero Chinook pertencente a equipe de Rangers do US Army localizado no topo de uma montanha no Afeganistão.

O Global Hawk, um dos mais famosos aviões não-tripulados

O Global Hawk, um dos mais famosos aviões não-tripulados

Cumpridores de missões sombrias, sujas e perigosas

Os UAVs são a opção lógica para substituir os pilotos em missões de alto risco. As aeronaves sem piloto também permitem sobrevoar de maneira próxima alvos em potencial assim aumentando a precisão no ataque ou permite a opção de disparar armas menos sofisticadas.

A USAF está atualmente preparando a retirada de sua frota de 30 UAVs de longo alcance e grandes altitudes, o RQ-4 Global Hawk Bloco 30, preferindo habilitar para tais missões os modernizados Lockheed Martin U-2S. A Força Aérea Americana relata que os Global Hawk são 55% menos disponíveis que o U-2S num período de trinta dias e que (segundo ela) o seu UAV não é operacionalmente adequado.

Os UAVs são, é claro, inestimáveis para o que se propõem, mas também são chamados nos meios militares como cumpridores de missões “sombrias, sujas e perigosas” que requerem que se mantenha sobre espaço aéreo hostil por períodos longos, que estejam além da capacidade para operações com jatos tripulados, que operem em áreas contaminadas por agentes químicos, radiológicos ou biológicos onde seria impraticável ou desaconselhável enviar um aeronave tripulada.

Estas características permitem aos UAVs cumprirem missões únicas em alto risco ou operações de reconhecimento na fase pré-hostil de uma campanha aérea em um conflito ou guerra quando há a necessidade de inteligência e quando as forças inimigas ainda não estão de alerta total.

O pequeno tamanho, baixa assinatura e baixo RCS (Secção Cruzada do radar) fazem dos veículos aéreos não-tripulados não suscetíveis a serem detectados enquanto perdas de aeronaves tripuladas podem causar eventualmente problemas políticos quando estas missões ocorrem em caráter clandestino.

O 'Predador' sendo preparado para uma missão

O ‘Predador’ sendo preparado para uma missão

Vantagens e desvantagens

A capacidade de cumprir missões a grandes distâncias é também uma grande qualidade dos UAVs que lhes permitem realizar vigilância, mais que uma mera passagem sobre o objetivo em modo de reconhecimento o que implica em uma maior quantidade de imagens em alta resolução.

Outra qualidade dos veículos UAV é a possibilidade do operador ter total consciência de alerta e controle situacional estando em estreito contato com as forças terrestres.

Em um ambiente calmo, com ar-condicionado e há centenas ou milhares de quilômetros da área de combate, isso permite um alto grau de tranquilidade, o que não ocorre com um piloto a bordo de sua aeronave.

Pelo aparente custo operacional e as vantagens da economia de esforços humanos, os UAVs se tornaram necessários no quadro político e econômico dos dias de hoje. Para dar suporte a eles existe o pessoal especializado de apoio em solo, como controladores de pouso e decolagem, reabastecimento, manutenção e rearmamento.

Pela escalada de custos de defesa e o desgaste político que uma missão tripulada acarreta, os UAVs devem assumir cada vez mais o papel principal nos futuros conflitos.