Gabriel Silva Lima de Sousa

Congonhas em 2014: aeroporto mais rentável da Infraero (Gabriel Silva Lima de Sousa)

Como numa virada aos 45 minutos do segundo tempo, o governo federal decidiu mudar de ideia no novo edital de concessão de aeroportos da Infraero e leiloar Congonhas, em São Paulo, em vez do Santos Dumont, no Rio, ambos os terminais que mais geram receita para a combalida Infraero. O projeto ainda depende de aprovação da Secretaria do Programa de Parcerias em Investimentos, que deve se pronunciar nos próximos dias.

A substituição do Santos Dumont por Congonhas, no entanto, não conta com apoio da Secretaria de Aviação Civil, que defende a concessão dos aeroportos em lotes que envolvem também terminais deficitários no pacote. O aeroporto central do Rio de Janeiro, por exemplo, deveria ser leiloado em conjunto com aeroportos como o de Vitória (ES), Governador Valadares (MG) e Macaé (RJ) que isolados teriam poucas chances de interessados.

Ao escolher Congonhas o governo federal pretende elevar a receita com concessões e assim tapar parte do buraco com as contas públicas. Estima-se que o terminal paulistano possa arrecadar ao menos R$ 5 bilhões dos R$ 20 bilhões previstos com todas as concessões – a União licitará também os aeroportos de Cuiabá e Recife em conjunto com outros terminais menores.

Burro de carga da Infraero

Até então, o governo federal tratava Congonhas como um trunfo para manter a Infraero viva. Por ser o aeroporto que mais dá lucros à estatal, o terminal deveria ser a última ‘peça’ a ser leiloada, antes da extinção da empresa. Agora, com a possibilidade de ser repassado às mãos privadas, restará como fonte de receita justamente o Santos Dumont que movimenta pouco menos da metade de passageiros que seu equivalente paulistano.

Caso a ideia avance, será uma virada e tanto para um aeroporto que esteve no ostracismo no final dos anos 1990 e cuja existência bem no centro da mancha urbana de São Paulo sempre foi questionada, sobretudo após os dois graves acidentes com aviões da TAM (hoje parte da LATAM).

Foi justamente a TAM que recolocou Congonhas de volta aos seus melhores momentos. Pela obstinação de seu antigo presidente, Rolim Adolfo Amaro, morto num acidente aéreo em 2001, a companhia então regional conseguiu convencer o governo a permitir os chamados voos diretos ao centro, frequências operadas por ela e outras regionais entre Congonhas, Pampulha, Santos Dumont e Curitiba.

(foto: Rémi Dallot)

Fokker 100 da TAM ajudou Congonhas a renascer (foto: Rémi Dallot)

Focados no passageiro executivo, esses voos fizeram sucesso, a despeito das pequenas aeronaves usadas. Em 1989, foi a vez de quebrar um tabu ao entrar como concorrente da Ponte Aérea Rio-São Paulo, então um monopólio da Varig, Vasp e Transbrasil. No ano seguinte, chegaria o avião que mudaria a rotina de Congonhas, o Fokker 100, jato regional de 108 lugares que passou a ser usado nas principais rotas da TAM.

A década de 1990 viu Congonhas reassumir importância no tráfego aéreo para a maior cidade do país, que desde 1986 estava quase que exclusivamente concentrado em Guarulhos. De lá para cá, o aeroporto cresceu quase sem parar até que o acidente com o Airbus A320 da TAM há dez anos obrigasse a ANAC a limitar as operações a partir dele – destinos muito distantes e aviões maiores acabaram sendo excluídos.

Enquanto arrecadava mais dinheiro para a Infraero, Congonhas não contou com a mesma atenção na sua modernização. Apenas em 2003 uma obra de ampliação e modernização foi executada pela estatal para oferecer mais comodidade aos passageiros ao construir um píer com salas e pontes de embarque em frente ao antigo terminal, inaugurada em 2005 – até então, todos os embarques e desembarques eram feitos a pé ou por ônibus. Um prédio de estacionamento também foi construído na praça Comandante Linneu Gomes.

Apesar disso, a grande demanda por voos nunca foi completamente satisfeita e os passageiros até hoje convivem com pouco espaço em check-in, lojas, corredores e esteiras. Nos últimos anos, a estatal até passou a oferecer mais opções de lojas e lanchonetes, mas é nítido que o terminal tem um potencial muito maior de exploração. Tanto assim que o governo Temer havia aventado a ideia de conceder parte do aeroporto para que uma empresa privada cuidasse da parte comercial.

Hangar e avião da Vasp: abandono há décadas em área importante de Congonhas (Thiago Vinholes)

Abandono

Além do terminal em si, Congonhas apresentará vários problemas aos possíveis interessados. Se por um lado é considerado atraente para passageiros e companhias aéreas pela sua localização estratégica, o aeroporto funciona em período restrito, das 6 às 23 horas e tem, desde 1996 os “slots”, uma programação rígida de voos que limita a ampliação da capacidade do aeroporto e mesmo a concorrência entre as empresas aéreas. Como o operador privado administrará esses interesses é um mistério.

Já as restrições implantadas em 2007 foram eliminadas em parte neste ano quando a ANAC voltou a permitir voos para aeroportos distantes como alguns localizados no Nordeste. Resta saber se haverá limitação para que aviões maiores como o Airbus A321 sejam usados no aeroporto.

Por outro lado, o concessionário assumirá uma área de mais de 1,6 milhão de metros quadrados, mas que em grande parte é hoje utilizada por hangares de manutenção ou está abandonada, como na parte onde estão a sede e os prédios usados pela falida Vasp. A área, de valor inestimável, hoje é palco de poucas atividades incluindo a feira anual de aviação executiva LABACE. Além da extinta companhia, também a Gol utiliza como sede boa parte do aeroporto onde ficavam as empresas Real Aerovias e depois a Varig.

Com o aperto e tombamento dos prédios originais do terminal de passageiros, utilizar essas áreas de hangares poderia ser uma saída interessante para o futuro concessionário, inclusive em transformar esses espaços em um local que reunisse comércio, hotel, eventos e convenções.

Como se vê, 81 anos após seu surgimento, o aeroporto Congonhas ainda é capaz de se reinventar – e também criar polêmicas, agora dentro do próprio governo.

Veja também: Aeroporto de Congonhas assume nome de ex-deputado