Um Seabee da família Cukurs nas águas da Represa Guarapiranga, em São Paulo (arquivo da família Cukurs)

A paixão pela aviação conquista homens há muito tempo, e foi assim com Herberts Cukurs. Nascido na Letônia em 1900, Herberts se alistou nas forças militares de seu país no período da Primeira Guerra Mundial; subindo postos gradativamente, tornou-se capitão aviador da Força Aérea Letã. Mesmo quando deixou seu trabalho militar e tomou a carreira de escritor e jornalista, os céus sempre lhe atraíram a atenção, e já na casa dos 30 anos de idade, decidiu voltar a voar, realizando voos de longa distância – algo pioneiro para sua época.

Depois do voo Riga (capital da Letônia) – Tóquio, em 1933, voltou a seu país como herói nacional, sendo condecorado com o Troféu Harmon e alçado aos primeiros lugares da lista de aviadores que mais contribuíram para o desenvolvimento da aviação mundial. Cukurs se diferenciava de outros pilotos de sua época por construir os próprios aviões que utilizava em seus “raids” (como eram chamadas as aventuras aéreas). Com o famoso Cukurs C-6, visitou Japão, China, Indochina, Índia e Rússia em 1937, e três anos depois construía o C-6 Bis, um inovador bombardeiro de mergulho, enquanto a Segunda Guerra Mundial eclodia no continente europeu.


Em 1941, a Letônia foi ocupada por tropas da Alemanha de Adolf Hitler, e Heberts alistou-se ao Arajs Kommando, unidade especial da polícia letã que, indiretamente, era subordinada à SS nazista. Diversos historiadores, dentre eles Andrew Ezergailis (autor do livro “O Holocausto na Letônia”) atribuem à Cukurs – apelidado de “O Carniceiro de Riga” – o envolvimento direto em diversos massacres ocorridos no país durante a guerra, como a queima de uma sinagoga em Riga com diversos fiéis dentro, o afogamento de 1.200 judeus num lago frio e a morte sistemática de cerca de 10.600 pessoas numa floresta próxima à capital do país. Cukurs, seus familiares e amigos próximos e também outros historiadores sempre negaram tal envolvimento.

Herberts Cukurs foi membro da Arajs Kommando, unidade especial da polícia letã que era subordinada à SS nazista

Culpado ou não, a sina por ter sido membro do Arajs Kommando recaiu em Cukurs quando o Eixo perdeu a Segunda Guerra. Com a Europa devastada e mencionado diversas vezes durante o Julgamento de Nuremberg como um dos responsáveis pelo holocausto, decidiu fugir de seu país, e por admirar Santos Dumont escolheu o Brasil como seu destino, imigrando com autorização do governo brasileiro em março de 1946 e desembarcando no Rio de Janeiro, a então capital federal.

Por seu grande conhecimento no trabalho com hidroaviões, rapidamente conseguiu emprego na Companhia Nacional de Navegação Aérea – CNNA, que encerrou suas atividades no ano seguinte; passou então a trabalhar de forma terceirizada com a reforma e manutenção de aeronaves do Aero Clube do Brasil, localizado no bairro de Manguinhos. Cukurs realizava uma curiosa operação: buscava os aviões no Rio de Janeiro e os levava de barco para sua oficina, localizada na sua “casa-oficina” em Niterói batizada como CENA (Consertos Especializados Náuticos e Aeronáuticos).

Com seu negócio prosperando, o piloto queria conseguir voltar a voar, e assim adquiriu algumas aeronaves antigas para reforma e operação casual. Após diversas tentativas frustradas num tempo em que a aviação era quase artesanal, Cukurs adquire um Aeronca C-3 e com ele passa a realizar voos panorâmicos na Baía de Guanabara e na Lagoa Rodrigo de Freitas, a partir de 1948, onde também passou a operar barcos de turismo, pedalinhos e até mesmo um restaurante flutuante.

Os ataques contra seu nome tiveram início quando ele já estava no Brasil em 1950, quando um jornal carioca publicou que um dos acusados pelos crimes nazistas estava no país explorando os pedalinhos da lagoa da capital federal. O governo brasileiro então pediu informações a diversos órgãos europeus e mesmo países diretamente interessados na resolução dos crimes nazistas como Israel que negaram a existência qualquer acusação formal contra Cukurs e validou então sua permanência; mas pressionada pela opinião pública, a prefeitura do Rio de Janeiro suspendeu o alvará de funcionamento de sua empresa turística e confiscou todos os seus aviões.

Herberts Cukurs então voltou a realizar somente atividades de manutenção de aeronaves, quando tomou conhecimento do enorme crescimento e prosperidade que o Estado de São Paulo passava naquele começo da década de 1950. Decidiu tentar a sorte, e num final de semana de sol forte voou com seu hidroavião Republic RC-3 Seabee prefixo PP-DVV para Santos para realizar voos panorâmicos na cidade. Sucesso absoluto: apenas no primeiro dia, realizou 36 decolagens com lotação esgotada, e na mesma hora ligou para sua família convidando-os para se mudarem para a praia paulista. Os vôos com os Seabee passaram a partir da Ponta da Praia e do José Menino, funcionando aos finais de semana e feriados; durante a semana, as aeronaves eram guardadas na Base Aérea de Santos, por gentileza do Brigadeiro Correia de Mello.

Seabee decolando da Represa Guarapiranga para mais um voo panorâmico (arquivo família Cukurs)

Os Seabees haviam sido desenvolvidos em 1945 por Percival Spencer e eram fabricados pela Republic, pequeno fabricante de aeronaves da cidade de Long Island, em New York, EUA. De operação simples, possuem capacidade para três passageiros além do piloto, com 8,5 metros de comprimento e velocidade máxima de 190 km/h. Ficaram em produção apenas entre 1946 e 1947; entretanto, neste período foram feitas mais de 1000 aeronaves, fazendo-o um dos aviões mais populares da história – e, proporcionalmente, um dos que tivessem mais unidades fabricadas por tempo de fabricação. Em 2006 ainda haviam cerca de 250 Seabees em operação no mundo, atuando principalmente em atividades de turismo e ambulância aérea.

O enorme sucesso dos passeios de hidroaviões fizeram o capitão expandir seus negócios: além da aquisição de uma fazenda de bananas em Juquiá – numa época em que o litoral sul de São Paulo era o maior produtor da fruta no mundo – Cukurs abriu também uma pequena empresa de táxi aéreo com um De Havilland DH-114 que havia pertencido à extinta Transportes Aéreos Salvador. Com seus quatro motores, era apelidado de “Constellation Baiano”, em alusão aos Lockheed Constellation operados nas rotas internacionais da Panair do Brasil, Varig e Real Aerovias. Além de passageiros, transportava carga para a construção da nova capital federal, Brasília.

Com o término das obras de Brasília, a empresa de táxi aéreo já não rendia tanto e a fazenda de bananas mostrou-se um negócio pouco rentável; Cukurs, observando que a grande maioria de seus passageiros eram paulistanos e tendo a informação de que a capital paulista possuía grandes represas, decidiu sobrevoá-la, e constatou que as represas não eram tão distantes do centro da cidade e que já dispunham de uma grande infraestrutura turística com clubes, balneários e hotéis. Com o dinheiro das vendas, adquiriu um grande terreno em Interlagos, às margens da Represa de Guarapiranga, onde reiniciaram os serviços de voos panorâmicos com seus dois Seabees, apelidados de “Oba” e “Fiu-Fiu”.

Herberts Cukurs, no centro, posando para foto junto do Seabee “Fiu-Fiu” (arquivo família Cukurs)

Novamente o simbolismo pela história da aviação pegou Cukurs: a escolha por Guarapiranga não foi aleatória. A represa já havia sido palco de um grande acontecimento para a aviação mundial, quando em 1928 recebeu o hidroavião “Jahu” comandado pelo aviador João Ribeiro de Barros, responsável pela primeira travessia aérea do Atlântico Sul sem escalas e anteriormente já havia recebido os italianos do “Santa Maria” que realizaram a mesma travessia além dos portugueses Gago Coutinho e Sacadura Cabral.

Novamente, o negócio mostrou-se um sucesso absoluto de público, o que o permitiu adquirir mais dois hidroaviões usados e construir um hangar no terreno de casa. Com seus aviões, Cukurs também contribuía voluntariamente nas horas vagas na distribuição de panfletos para conscientização da população da importância da vacinação contra a poliomielite, o que lhe rendeu um título de agradecimento feito pelo Governo de São Paulo em 1962 pelos relevantes serviços prestados.

Mas o fantasma da Segunda Guerra não o abandonava: na mesma época, Adolf Eichmann, criminoso nazista, foi capturado em Buenos Aires pela Mossad, o serviço secreto de Israel, e morto dois anos depois após julgamento. A notícia reacendeu o assunto de criminosos de guerra fugidos para a América do Sul, e novamente os jornais encontraram Cukurs, agora vivendo em São Paulo.

Em 1965, Herberts Cukurs foi convidado para participar de uma feira aeronáutica em Montevidéu, no Uruguai, de onde nunca mais voltou. O convite na verdade era uma emboscada do Mossad; seu corpo foi encontrado algumas semanas depois do feito. Cukurs, apesar da idade avançada, estava em boa forma física e entrou em luta corporal com os agentes, que acabaram por lhe matar com dois tiros na cabeça.

Seus dois filhos continuaram tocando a CENA na Represa de Guarapiranga até 1995, quando decidiram encerrar os voos, que já não atraiam tantos turistas devido à degradação da represa como ponto turístico por conta da poluição e das ocupações irregulares de suas margens. Nos quase 40 anos de operação foram realizados mais de 50 mil pousos e decolagens com o transporte de 200 mil passageiros sem a ocorrência de um único acidente. Após a paralisação do serviço, seus herdeiros doaram os Seabees da frota para o Museu Aeroespacial, mantido pela Força Aérea no Campo dos Afonsos, Rio de Janeiro, onde se encontram hoje preservados.

Thales Veiga é editor do blog Orgulho de Ser Paulista e autor do livro “Histórias da Pátria Paulista”.

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