A versão definitiva do Concorde voou pela primeira vez em 31 de janeiro de 1975

A versão definitiva do Concorde voou pela primeira vez em 31 de janeiro de 1975

O futuro sempre nos promete maior desempenho, eficiência e maiores velocidades. No entanto, a aviação tomou um rumo contrário, ao menos na área que diz respeito ao transporte de passageiros. Uma viagem entre o Rio de Janeiro e Paris pode demorar de 12 a 14 horas a bordo de um moderno Boeing 777. No passado, esse mesmo trecho podia ser feito em apenas cinco horas e meia com o avião supersônico Concorde, que foi aposentado em 2003 e nunca teve um sucessor.

Neste ano, a famosa aeronave completou 40 anos de seu primeiro voo em versão definitiva, quando decolou no dia 31 de janeiro de 1975 de Toulouse, na França, na então sede da Sud Aviation (atualmente Airbus Group). O desenvolvimento do Concorde, que também contou a participação da British Aerospace Corporation (hoje BAe Systems), começou ainda na década de 1950 e os primeiros protótipos voaram em 1969.

Criar um avião como o Concorde não foi uma tarefa nada fácil. Até então, aviões supersônicos eram pequenos e tinham alcance bastante limitado, servindo apenas para funções militares. Para transportar passageiros, esse avião teria de ser grande e contar com uma enorme capacidade de combustível para voos de longo curso em velocidades superiores a do som.

A princípio, ingleses e franceses iniciaram seus projetos de avião de passageiros supersônico de forma independente – a norte-americana Boeing também trabalhava em algo parecido ao mesmo tempo, mas fracassou. No meio do caminho, com as empresas europeias buscando parcerias para concluir seus projetos, a Sud Aviation e a British Aerospace se surpreenderam ao encontrarem ideias tão parecidas entre si. Juntando forças (e combinando projetos), o desenvolvimento do avião começou a avançar mais rápido e em poucos anos os primeiros protótipos do Concorde já estavam voando.

Depois da Air France, a companhia British Airways foi o outro usuário do Concorde

Depois da Air France, a companhia British Airways foi o outro usuário do Concorde

Como na maioria dos aviões mais avançados das décadas de 1950 a 1970, o Concorde também contou a participação de um engenheiro alemão que serviu ao regime nazista durante a II Guerra Mundial. Dietrich Küchemann, especialista em aerodinâmica, foi grande responsável pelo projeto das asas delgadas com formato em delta do avião supersônico, que mais adiante mudaria totalmente a forma de construir jatos supersônicos – praticamente todos os aviões de caças em operação atualmente seguem esse formato.

O nome “Concorde”, aliás, foi difícil de ser engolido pelos ingleses. A palavra é francesa e pode ser entendida como um sinônimo de união e harmonia. Os britânicos sugeriram chamá-lo de “Concord”, o equivalente em inglês para a palavra em francês. No entanto, Tony Benn, ministro de tecnologia britânico na época, decretou que o avião seria chamado de Concorde, sendo o “e” no final uma referência a “Europa” e “England” (Inglaterra). Até então, o avião era chamado de “Super Caravelle”.

Durante os pousos e decolagem o Concordo abaixava o bico para melhorar o campo de visão dos pilotos

Durante os pousos e decolagens o Concorde baixava o bico para melhorar o campo de visão dos pilotos

Brasil foi o primeiro a apostar no Concorde

Antes mesmo de ser considerado apto para operar comercialmente, uma série de companhias aéreas pelo mundo todo efetuaram pedidos de compra do Concorde. Poucos sabem, mas a primeira empresa a investir no avião supersônico era brasileira: a Panair do Brasil. Em 3 de outubro de 1961, ao assinar um contrato de compra de aeronaves Caravelle da Sud Aviation, a empresa exigiu ser a primeira da fila a receber o “Super Caravelle”.

O negócio, porém, não foi concretizado devido a falência da Panair em 1965. A empresa havia assinado um acordo para comprar três aeronaves ao preço unitário de US$ 8 milhões, algo em torno de US$ 63 milhões na cotação atual. Depois da empresa brasileira, outras 19 companhias aéreas apresentaram pedidos de aquisição do Concorde, mas a alta do petróleo em 1973 forçou a maioria dessas empresas a desistirem da compra, restando apenas a Air France e a British Airways. Cada uma dessas companhias adquiriu sete unidades do avião supersônico.

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Brasil e Bahrein foram os primeiros destinos comerciais do Concorde. Em 21 de janeiro de 1976, a aeronave com matrícula F-BVFA da Air France decolou de Paris rumo ao Rio de Janeiro, com uma escala em Dacar, no Senegal, para reabastecimento. Simultaneamente, no mesmo dia outro Concorde da British Airways decolou de Londres com destino ao Bahrein.

Sempre que pousava no Rio de Janeiro o Concorde atraia multidões no aeroporto do Galeão. Eram dois voos por semana, às quarta-feiras e domingos, com chegada ao RJ às 16h00 e retorno a Paris às 19h40. Eram as passagens aéreas mais caras oferecidas no Brasil, com um preço superior a R$ 10 mil na cotação atual (só de ida).

O incrível Concorde

O último voo regular do Concorde entre Paris e Rio de Janeiro aconteceu em 1º de abril de 1982. Depois disso, o avião supersônico voltou ao Brasil somente em voos charter, tanto com unidades da Air France como da British Airways. Além do Rio, a aeronave também pousou em São Paulo e Foz do Iguaçu. Mas o destino mais rentável do avião revolucionário foi os Estados Unidos.

As companhias que operavam o Concorde, porém, precisaram de longas conversas com autoridades dos EUA para aprovarem sua entrada no país em voo supersônico. Ambientalistas e moradores das cidades onde o avião pousaria temiam que o estrondo sônico e seus índices de emissão seriam altamente prejudiciais a essas regiões.

Os voos para os EUA só foram aprovados depois que as companhias conseguiram provar que o Concorde emitia menos ruído em velocidade supersônica que um Boeing 707 e que para causar algum dano ambiental significativo seria preciso uma frota com mais de 500 Concordes. Sendo assim, os voos para o país começaram em 24 de maio de 1976 e o primeiro aeroporto norte-americano a receber a aeronave foi o de Washington e no ano seguinte iniciaram as operações em Nova York, que se tornou o principal destino do avião.

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Em 1977, British Airway e Singapore Airlines assinaram um contrato de compartilhamento de um Concorde, que de um lado mantinha a pintura da companhia britânica e do outro exibia as cores da empresa de Singapura. Essa parceria, porém, durou apenas três viagens e foi desmanchada após os governos da Malásia e Índia proibirem o voo supersônico em seus espaços aéreos, tornando a operação inviável.

O Concorde registrou apenas um acidente em 27 anos de operação

O Concorde registrou apenas um acidente em 27 anos de operação

Fim do Concorde

A carreira do Concorde, que até então nunca havia registrado um acidente com vítimas fatais, sofreu um duro golpe quando o exemplar F-BTSC caiu em Paris em 25 de julho de 2000, matando todos os 100 passageiros e 9 tripulantes, além de mais quatro pessoas em solo – esse mesmo avião foi o que iniciou as operações entre Paris e Rio de Janeiro 24 anos antes.

Quando decolava do aeroporto Charles de Gaulle, o Concorde da Air France atingiu um pedaço de metal que se desprendeu de um DC-10 da Continental Airlines que havia decolado minutos antes, causando a perfuração de um dos tanques de combustível da asa esquerda seguido do incêndio de dois motores. O piloto ainda tentou seguir para outro aeroporto, mas acabou perdendo sustentação e caiu sobre um pequeno hotel no subúrbio de Paris.

Após o acidente, as operações com o Concorde foram suspensas, mas já no dia seguinte as unidades da British Airways retomaram as operações, voltando a suspendê-las dois meses depois devido ao cancelamento do certificado de aeronavegabilidade por autoridades inglesas.

Um Concorde melhorado foi desenvolvido, recebendo proteções extras nos tanques de combustível, pneus mais resistentes e melhorias de isolamento da fiação elétrica. Esse avião voou pela primeira vez em 17 de junho de 2001 e em setembro já estava de volta aos voos regulares entre Europa e EUA com as cores da Air France e British Airways. Mas novas dificuldade surgiram.

O avião russo Tupolev Tu-144 foi o único concorrente do Concorde. O avião, porém, voou por apenas três anos

O russo Tupolev Tu-144 foi o único concorrente do Concorde e ganhou o apelido “Concordski”. O avião, porém, voou por apenas três anos

A crise financeira internacional de 2000 e os ataques as Torres Gêmeas nos EUA no ano seguinte, que causaram uma crise na aviação comercial, aliada a decisão da Airbus de não fornecer mais assistência técnica ao Concorde decretaram o fim da carreira do avião supersônico.

Em 2003, os operadores da aeronave decretaram o fim de suas operações. O bilionário Richard Branson, fundador do grupo Virgin, que inclui desde estúdios de gravação a companhias aéreas, tentou comprar os sete Concorde da British Airways. A Airbus, contudo, reafirmou sua posição de suspender a assistência e o plano de Branson foi cancelado.

O último voo comercial de um Concorde foi realizado pela Air France em 30 de maio de 2003, quando o avião cruzou pela última vez o Oceano Atlântico no trecho Nova York – Paris. A British Airway ainda promoveu uma série de voos de demonstração com o avião e em algumas ocasiões voou em formação com os Red Arrows, a esquadrilha de acrobacias da Força Aérea Britânica (RAF).

Concorde voando em formação com a esquadrilha Red Arrows da RAF

Concorde voando em formação com a esquadrilha Red Arrows da RAF

Todos as unidades remanescentes do Concorde foram preservadas em museus e aeroportos na Europa e Estados Unidos. Uma pena nenhum ter vindo para o Brasil, que foi o primeiro país a investir no avião e um dos primeiros a recebê-lo em seus aeroportos.