Quase 200 helicópteros foram descolocados para Chernobyl após o acidente nuclear (Domínio Público)

Quase 200 helicópteros foram descolocados para Chernobyl após o acidente nuclear (Domínio Público)

No dia 26 de abril de 1986, o reator número quatro da usina nuclear de Cherbonyl, na Ucrânia (então parte da antiga União Soviética), começou a derreter após um experimento que saiu do controle. Uma oscilação de energia repentina foi o suficiente para elevar a temperatura do núcleo, que em poucos minutos começou a pegar fogo de forma feroz, ameaçando também os outros três reatores da central. Era preciso controlar a situação, e rápido.

Mas não havia água o suficiente para resfriar o reator. A quantidade disponível em Cherbobyl não bastava e se usada naquela quantidade poderia aumentar ainda mais as proporções do acidente, causando mais explosões. A única solução encontrada, 36 horas após o acidente, foi empregar helicópteros, que deveriam despejar sobre o reator exposto uma mistura de areia, chumbo, argila e boro, a fim de neutralizar o vazamento radioativo.

Ao mesmo tempo em que os habitantes de Chernobyl e outras cidades ao redor eram totalmente evacuados, a força aérea soviética iniciou uma enorme movimentação de centenas de helicópteros para a zona contaminada. Modelos de empresas civis (e suas tripulações) também foram convocados. Era o início de umas das operações mais arriscadas e esforçadas da história da aviação.

Tapando o buraco em gotas

Durante a crise em Chernobyl, os soviéticos empregaram cinco tipos de helicópteros: Mi-2, Mi-6, Mi-8, Mi-24 e o gigante Mi-26, o maior helicóptero do mundo, que teve uma importância fundamental na ação.

Os modelos de maior porte, Mi-8 e Mi-26, eram os responsáveis por despejar a mistura química sobre o reator rachado. O principal objetivo era conter a radiação que era lançada a até 900 metros de altura. E, para isso, os pilotos, sem nenhuma proteção especial, precisam voar em meio a essas “nuvens” e lançar com exatidão sua carga.

Os helicópteros e tripulações voavam a poucos metros do foco do vazamento radioativo (Domínio Público)

Os helicópteros e tripulações voavam a poucos metros do foco do vazamento radioativo (Domínio Público)

Não só isso, era preciso efetuar os lançamentos em “conta-gotas”. Cada helicóptero Mi-26 podia despejar somente 3.000 kg do material sobre o reator a cada voo. Os aparelhos podiam carregar quantidades maiores (até 20 toneladas), mas lançá-las de uma vez poderia fazer a usina inteira ceder com o impacto.

As camadas de boro absorviam os nêutrons do vazamento e o chumbo continha o fluxo radioativo. Já a areia e argila foram usados para preencher a rachadura causada pelo incêndio. Auxiliados por controladores em terra, os pilotos deveriam voar a poucos metros do vazamento e lançar os agentes de contenção. E isso era extramente difícil.

Nos primeiros dias da limpeza, as ações eram realizadas da seguinte (e perigosíssima) forma: os helicópteros se aproximavam do vazamento, abriam as portas laterais (deixando todos ainda mais expostos) e lançavam manualmente sacos com o material de contenção. Em seguida, os aparelhos passaram a carregar a carga em suportes externos.

O Mi-8 não podia não lançar as cargas parado, pois não tinha potência suficiente para pairar totalmente carregado. Por isso, tinha de fazê-lo em movimento, o que reduzia drasticamente a precisão dos lançamentos. Já o Mi-26 conseguia ficar parado sobre o vazamento e lançar a carga com exatidão, mas isso também aumentava o tempo em que os tripulantes ficavam expostos a radiação.

Foram necessários mais de 4.000 sobrevoos sobre o reator durante o período. No momento em que as principais operações de limpeza terminaram, em 13 de maio de 1986, mais de 5.000 toneladas da mistura química foi pulverizada sobre o reator. Uma tática de combate a incêndios, nunca aplicada antes, foi declarada bem-sucedida. Mas o trabalhos com os helicópteros continuariam em Chernobyl até ao final de 1986.

Imagens das tripulações da época são no mínimo assustadoras. Pilotos voavam para dentro da radiação apenas com simples máscaras no rosto e nenhum traje específico para proteção contra radiação – o calor era tanto que alguns voavam apenas vestindo calças. Soluções foram pensadas somente mais adiante: os Mi-26 ganham piso com chapas de chumbo.

O Mi-26 foi fundamental nas operações de contenção em Chernobyl (Domínio Público)

O Mi-26 foi fundamental nas operações de contenção em Chernobyl (Domínio Público)

Esses mesmos helicópteros também foram utilizados para despejar agentes de contenção ao redor de toda a cidade, criando uma espécie de escudo que para impedir o avanço da radiação pelo solo.

Segundo relatos da época, esses helicópteros ficavam tão contaminados de radiação, que quando pousavam em campo aberto a grama ao redor amarelava em poucas horas. As tripulações tinham permissão para voar sobre Chernobyl somente por três dias, caso contrário poderiam adoecer rapidamente.

O número de pessoas que morreram ou adoeceram decorrente do vazamento nuclear é incalculável (Domínio Público)

O acidente em Chernobyl poderia ter contaminado toda a Europa (Domínio Público)

Helicópteros contaminados

Ao retornar de cada voo, os helicópteros eram lavados. Mas isso não era o suficiente. Grandes quantidades de detritos radioativos haviam sido sugados pelos motores e tentar limpá-los era ainda mais perigoso. Por isso, todas as aeronaves utilizadas nesses operações foram abandonadas. O mesmo aconteceu com centenas de caminhões que rodaram pela região.

Durante a ação de contenção, apenas um Mi-8 foi perdido. O helicóptero colidiu com os cabos de aço de um guindaste ao lado da usina e caiu ao lado do reator danificado, matando os três tripulantes.

Em menos de um mês, o nível de radiação atingiu um patamar mais seguro (embora ainda fosse perigoso), que permitiu aos soviéticos iniciarem ações mais intensivas por terra. Não fosse pela coragem e o sacrifícios desses pilotos de helicópteros, a radiação lançada em Chernobyl poderia ter se espalhado por toda a Europa e parte da Ásia.

Centenas de veículos e helicópteros contaminados foram abandonados em Chernobyl (Reprodução/EnglishRussia)

Centenas de veículos e helicópteros contaminados foram abandonados em Chernobyl (Reprodução/EnglishRussia)

A URSS nunca divulgou quantos militares adoeceram ou morreram por conta da exposição a radiação após os perigosos voos. Os trabalhos de descontaminação em Chernobyl continuam até hoje, mas ainda estão longe de terminar…

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