O BV 238 foi um projeto da Blohm & Voss, empresa alemã que atualmente fabrica grande navios de carga (Domínio Público)

O BV 238 foi um projeto da Blohm & Voss, empresa alemã que atualmente produz navios (Domínio Público)

A indústria da Alemanha nazista construiu alguns dos aviões mais incríveis do passado. Entre caças extremamente ameaçadores com tecnologias pioneiras a formidáveis aeronaves de transporte, os alemães também desenvolveram o maior avião do mundo durante o período da Segunda Guerra Mundial, o magnífico hidroavião com seis motores Blohm & Voss BV 238.

A enorme aeronave foi projetada para acompanhar os planos expansionistas da Alemanha de Adolf Hitler, que naquela época planejava a conquista de territórios por todo o planeta e a criação de uma rede colonial, inclusive com presença na América do Sul. Para efetuar a invasão dessas novas terras e posteriormente abastecê-las, era necessário um transporte ágil de grande capacidade e longo alcance, algo que nos anos da guerra só poderia ser feito pelos “Flugboots” (“barcos voadores”, em alemão).

O principal fabricante de hidroaviões da Alemanha durante o conflito era a Blohm & Voss, empresa fundada no final do século XIX e especializada na construção de navios, atividade que mantém até os tempos atuais. Combinando a experiência naval com novos conhecimentos aeronáuticos, a BV produziu “barcos voadores” de diferentes portes, como o BV 138 e o BV 222, modelo que serviu de base para o projeto do BV 238.

O desenvolvimento do BV 238 foi iniciado em 1941, logo após o BV 222, então o maior avião em serviço na Alemanha, entrar em operação. A aeronave de porte ampliado surgiu por sugestão de seu projetista, o engenheiro alemão Richard Vogt, que na época trabalhava no desenvolvimento de um hidroavião maior ainda, o BV P200, de transporte comercial, mas que não saiu do papel.

O hidroavião de patrulha BV 222 serviu de base para o projeto do BV 238 (Domínio Publico)

O hidroavião de patrulha BV 222 serviu de base para o projeto do BV 238 (Domínio Publico)

Aproveitando partes do BV 222 e novas ideias criadas a partir do BV P200, Vogt projetou um hidroavião multi-tarefa. Além da pretendida função de transportador pesado de longo alcance, o aparelho também deveria servir para atacar embarcações, realizar patrulhas marítimas e desembarque anfíbio de tropas e veículos de combate.

Monstro marinho

O primeiro protótipo do hidroavião gigante ficou pronto no início de 1944 e o voo inaugural foi realizado em abril daquele ano. O mundo nunca havia visto uma máquina voadora tão grande e pesada: o novo Flugboot nazista media 43,3 metros de comprimento e tinha uma envergadura de 60,1 m. Já o peso máximo de decolagem foi estimado em até 100.000 kg – vazio, o BV 238 pesava 54.780 kg.

O primeiro voo do BV 238 foi realizado em abril de 1944, a partir do rio Elba, em Hamburgo

O primeiro voo do BV 238 foi realizado em abril de 1944, a partir do rio Elba, em Hamburgo

Os seis motores, fornecidos pela Daimler-Benz, eram enormes blocos V12 de 42,5 litros de deslocamento, cada um capaz de gerar 1.900 cavalos de potência. O conjunto era suficiente para levar a aeronave a velocidade máxima de 425 km/h e atingir a autonomia de 6.000 km, o suficiente para atravessar o Oceano Atlântico, o que não era nada mau para um avião de 100 toneladas projetado nos anos 1940.

As armas do BV 238 também assustavam, seguindo o melhor estilo “fortaleza voadora”. O hidroavião contava com 20 torres com metralhadoras e mais dois canhões para auto-defesa. As asas do avião eram tão grandes e grossas, que contavam com porões para armamentos. Ao todo, o avião podia transportar 20 bombas de 250 kg nos compartimentos internos ou então engenhos maiores, como bombas de 1.000 kg ou torpedos, em cabides externos. Outra possibilidade era a capacidade de lançar a “bomba-planadora” BV 143 ou o rudimentar Hensche HS 293, um dos primeiros mísseis com orientação desenvolvidos no mundo, guiado por sinais de rádio.

Avião de fuga

A base de testes do BV 238 era o rio Elba, em Hamburgo, na mesma região onde hoje existe uma fábrica da Airbus, inclusive responsável por construir componentes do A380, o maior avião de passageiros da atualidade. Foi de lá que o enorme hidroavião alemão realizou 38 voos de teste bem sucedidos, todos comandados pelo capitão Helmut Rodig, piloto de ensaio da Luftwaffe, a força aérea da Alemanha.

BV 238 voando sobre o rio Elba, de onde partiu para 38 voos de teste bem sucedidos

BV 238 voando sobre o rio Elba, de onde partiu para 38 voos de teste bem sucedidos

Enquanto o primeiro protótipo era testado, a Blohm & Voss trabalhava na construção de outras duas unidades do BV 238, que nunca seriam finalizadas. A guerra da Europa caminhava para seus últimos capítulos e a Alemanha enfrentava larga desvantagem. A zona industrial de Hamburgo, não por acaso, era um dos principais alvos dos bombardeiros aliados, o que forçou a fabricante a “esconder” o hidroavião no lago Schaalsee, a cerca de 80 km do rio Elba, em agosto de 1944.

Perto do final da Segunda Guerra Mundial, houve rumores de que importantes nomes do partido nazista, incluindo o próprio Hitler, planejavam fugir da Alemanha, fosse em submarinos ou usando aviões de longo alcance. O BV 238, embora ainda não fosse declarado operacional, poderia servir como um meio de fuga para pontos distantes do território alemão.

No final de abril de 1945, já com a Alemanha praticamente rendida, o BV 238 foi encontrado em seu esconderijo no lago Schaalsee por esquadrilhas da RAF, a força aérea britânica. A posição do gigante foi reportada e logo em seguida aeronaves britânicas de ataque retornaram ao ponto e atacaram o então maior avião do mundo com rajadas de metralhadoras.

A aeronave destruída, com a fuselagem rachada ao meio, permaneceu no mesmo lugar até meados de 1948, quando finalmente foi desmontada e seu alumínio reciclado e comercializado.

O BV 238 foi atacado e destruído por aviões britânicos no lago Schaalsee, na região de Hamburgo

O BV 238 foi atacado e destruído por aviões britânicos no lago Schaalsee, na região de Hamburgo

Nenhum vestígio do BV 238 foi preservado, ao contrário da experiência de seu projetista. Com o final da guerra, Richard Vogt, assim como muitos outros engenheiros alemães, se mudou para os Estados Unidos, onde trabalhou em diversos projetos aeronáuticos, militares e civis.

A última contribuição de Vogt, então um dos maiores especialistas do mundo em aeronaves de grande porte, foi no projeto do Boeing 747, lançado em 1969 e até hoje um dos maiores aviões do mundo.

Veja mais: FW 200 Condor, o carrasco do Atlântico