O Ipanema detém atualmente mais de 80% do mercado de aviação agrícola no Brasil (Embraer)

O Ipanema detém atualmente mais de 80% do mercado de aviação agrícola no Brasil (Embraer)

Além de atuar nos segmentos de aviação comercial, executiva e militar, a Embraer também tem uma importante presença no meio agrícola, onde oferece o Ipanema 203. Avião mais longevo da indústria aeronáutica brasileira, o monomotor projetado para pulverizar defensores agrícolas em plantações passou recentemente por uma profunda reformulação que melhorou a eficiência de seu trabalho nas lavouras.

Aproveitando o embalo da recuperação do mercado agrícola nacional, a Embraer convidou a imprensa para conhecer o novo Ipanema em sua fábrica em Botucatu (SP). A nova geração da aeronave, lançada em 2015, é o EMB-203, com mudanças importantes no sistema de pulverização e também na parte de motorização que fazem dele um caso único na indústria mundial.

O Ipanema é o primeiro avião da história produzido em série equipado com motor movido a etanol – as versões anteriores eram abastecidas com gasolina de aviação (avgas). O motor atual do EMB-203 é o Lycoming 2700 RPM seis cilindros de 320 HP, adaptado para funcionar com o combustível vegetal.

“O novo Ipanema usa o mesmo etanol que abastece automóveis. Essa mudança reduziu significativamente os custos operacionais da aeronave. O etanol é até quatro vezes mais barato que o avgas”, explicou Marcelo Gerulaitis, gerente senior do programa Ipanema da Embraer.

Fazendeiro aéreo

Comparado a geração anterior, o Ipanema 202, o modelo atualizado ganhou mais dois metros de envergadura de asas (passou de 11,07 metros para 13,3 m), aumentando sua faixa de deposição de agentes agrícolas em 20%. “Com essa alteração o avião faz menos passagens sobre a plantação durante as aplicações, acelerando a produtividade”, contou o gerente.

O “hopper”, compartimento onde são armazenados os agentes agrícolas, também foi ampliado: passou de 950 litros para 1.050 l. Outras mudanças no projeto estão na cabine de comando, que ficou mais alta e confortável para o piloto. “Essa mudança no cockpit facilita o trabalho do piloto, que precisa fazer uma série de voos rasantes”, explica Gerulaitis. A Embraer também reprojetou os winglets nas pontas das asas, melhorando do controle da aeronave e a área de visão lateral.

Apesar do aspecto aparentemente simples, o Ipanema conta com equipamentos de alta tecnologia, como navegação GPS e altímetro laser. Esses recursos aumentam a precisão de aplicação de produtos sobre as plantações. O lançamento de agentes agrícolas é um trabalho delicado, realizado em voos rasantes a uma altitude de meros 3 metros.

O Ipanema é produzido na fábrica da Embraer em Botucatu (SP); cada avião custa R$ 1,5 milhão (Thiago Vinholes)

O Ipanema é produzido na fábrica da Embraer em Botucatu (SP); cada avião custa R$ 1,5 milhão (Thiago Vinholes)

“Quando desenvolvemos o novo Ipanema estimamos uma melhora de 20% na eficiência de produtividade nas fazendas. No entanto, pilotos que já voam com o modelo vem reportando melhoras da ordem de 30% a 50%. O avião superou nossas expectativas”, comemorou o Gerulaitis.

Como explica a Embraer, além da pulverização de fertilizantes e herbicidas, o Ipanema também pode ser aplicado em funções como disseminação de sementes (para reflorestamento), combate primário a incêndios, povoamento de rios (espalhando alevinos) e até mesmo nucleação de nuvens para criar chuvas artificiais.

O Ipanema pode voar a velocidade de cruzeiro de 180 km/h e alcançar até 3.000 metros de altitude (Thiago Vinholes)

O Ipanema pode voar a 180 km/h e alcançar até 3.000 metros de altitude (Thiago Vinholes)

Avião versus trator

De acordo com estimativas da Embraer, atualmente 15% de toda pulverização de agentes agrícolas no Brasil é realizado por aviões, sendo mais de 80% deles modelos da série Ipanema. O restante dessa tarefa é realizada por tratores com equipamentos específicos, o que segundo a fabricante aeronáutica é menos eficiente e até mesmo prejudicial para as plantações.

Tratores com equipamentos de pulverização podem "atropelar" parte da plantação (John Deere)

Tratores com equipamentos de pulverização podem “atropelar” parte da plantação (John Deere)

“O trator precisa rodar sobre a plantação, técnica que pode prejudicar uma plantação de diferentes formas, como a compactação do solo ou mesmo espalhando pragas de uma área para a outra. Comparado aos aviões agrícolas, o uso de veículos terrestres causa uma perda de até 5% na colheita. Com o avião voando sobre a lavoura, nada disso acontece e os ganhos são maiores”, exemplifica Gerulaitis.

O hooper do Ipanema 203 comporta 1.050 litros de agentes agrícolas (Embraer)

O hooper do Ipanema 203 comporta 1.050 litros de agentes agrícolas (Embraer)

Avião agrícola exige “super-piloto”

Voar a baixíssimas altitudes pulverizando plantações é um trabalho de alto risco e que exige extrema perícia. Os pilotos agrícolas estão entre os mais habilidosos da aviação, com nível de instrução e experiência comparável ao de aviadores que pilotam aviões militares de combate.

Esse segmento também tem alguns do melhores salários da aviação brasileira. Segundo o gerente do programa Ipanema, um piloto agrícola ganha em média R$ 200 mil por safra. “Também observamos que existem pilotos que ganham bônus por produtividade, o que pode aumentar ainda mais esse número”, contou o gerente da Embraer responsável pelo Ipanema.

O Ipanema também pode ser utilizado no combate a incêndios (Thiago Vinholes)

O Ipanema também pode ser utilizado no combate a incêndios (Thiago Vinholes)

O ramo da aviação agrícola ainda é um dos mais carentes de pilotos no Brasil, tanto que o número de profissionais nessa área é praticamente igual ao de aeronaves. A frota hoje disponível no país conta 2.080 aviões agrícolas, sendo mais de 1.200 deles das séries produzidas pela Embraer – a segunda marca desse nicho mais presente no mercado brasileiro é a Air Tractor, dos Estados Unidos.

70 anos de aviação agrícola no Brasil

A aviação agrícola foi inventada pelo agente florestal alemão Alfred Zimmermann em 1911 mas só teve aplicação comercial nos EUA, em 1921. Nessa tempo, os inseticidas eram lançados manualmente do avião por um segundo tripulante. Já no Brasil, o primeiro uso dessa técnica foi registrado em 1947, em fazendas de Pelotas (RS) que sofriam com ataques de gafanhotos.

O Ipanema voou pela primeira vez em 1970 (Centro Histórico Embraer)

O Ipanema voou pela primeira vez em 1970 (Centro Histórico Embraer)

A profissionalização da aviação agrícola no Brasil foi iniciada em 1967, quando foi formada a primeira turma de pilotos agrícolas, na Fazenda Ipanema, em Sorocaba (SP) – daí que vem o nome do avião agrícola da Embraer.

O desenvolvimento do Ipanema começou em 1968. O projeto nasceu no Centro Técnico Aeroespacial (CTA), em São José dos Campos (SP), e logo em seguida foi assumido pela Embraer, criada em 1969, e as primeiras unidades foram entregues em 1972.

De acordo com a fabricante, as culturas que mais utilizam aviões pulverizadores no Brasil são as de algodão, cana de açúcar, soja e milho. Já as regiões com maior demanda por aeronaves desse tipo são, pela ordem, o Mato Grosso, Rio Grande do Sul e São Paulo.

Presente no mercado há 45 anos e com 1.380 unidades produzidas, o Ipanema ainda está longe de sair de cena. Pelo contrário, com a necessidade por cada vez mais alimentos pelo mundo, a Embraer afirma que essa é uma categoria em franca expansão e cada vez mais necessária no mundo da agronomia.

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