Hindeburg entrando no hangar em Santa Cruz, em meados de 1936 (BASC)

Hindenburg entrando no hangar em Santa Cruz, em meados de 1936 (BASC)

Da estação Central do Brasil, passageiros e muitos curiosos embarcavam no trem que percorria 54 km do antigo centro do Rio de Janeiro até o último bairro da cidade, Santa Cruz. Lá, próximo a baía de Sepetiba, ficava o Aeroporto Bartolomeu Gusmão, o primeiro do país com estrutura completa para receber voos internacionais. Mas ali não pousavam aviões. Pelo contrário, a nave que ali chegava nem tocava o chão. Era o tempo dos enormes Zeppelins, as maiores máquinas voadoras da história e que na década de 1930 eram figuras populares na cidade maravilhosa.

O aeroporto não existe mais, nem estação a trem. Mas o hangar onde os enormes aeróstatos alemães eram guardados com segurança permanece impecável e em pleno uso, embora por aviões, que mais parecem miniaturas na imensidão de seu interior. A construção que antes foi administrada pela companhia aérea alemã Luftschiffbau-Zeppelin, hoje pertence a Aeronáutica, que transformou o antigo terminal na Base Aérea de Santa Cruz (BASC).

Inaugurado no dia 26 de dezembro de 1936, com direito até a presença de Getúlio Vargas, então presidente do Brasil, o enorme hangar completa 80 anos nesta segunda-feira (26) desafiando o tempo e suas intempéries, provando a eficiência e resistência do projeto.

Medidas descomunais

No início da década de 1930, Alemanha e Brasil mantinham estreitas relações comerciais e políticas e os voos dos Zeppelin consolidaram essa parceria. Os “navios-voadores”, como eram chamados os dirigíveis, partiam de Frankfurt e chegavam aos céus brasileiros por Recife (PE). Mas a maior demanda de passageiros estava no Rio de Janeiro.

Atualmente o hangar é utilizado como espaço para manutenção de aeronaves a armazenamento de material (FAB)

Atualmente o hangar é utilizado como espaço para manutenção de aeronaves (FAB)

Em 1933, o Brasil liberou uma enorme quantidade de crédito a Luftschiffbau-Zeppelin para a construção do Aeroporto Bartolomeu Gusmão, nome em homenagem ao padre nascido na época do Brasil Colonial e creditado como um dos pioneiros na invenção do balão. Todas as partes de aço do hangar foram fabricadas na Alemanha e enviadas desmontadas de navio para o Rio, onde foram montadas por mais de 5.500 operários, sendo um terço deles alemães.

Enquanto o aeroporto e o hangar eram construídos, os suntuosos Graf Zeppelin e o Hindenburg, realizavam suas frequentes viagens entre o Brasil e a Alemanha. No RJ, o primeiro ponto de parada dos dirigíveis foi no Campo dos Afonsos, hoje também uma base militar. No entanto, nesse local os fortes ventos eram um risco para as operações das enormes máquinas – o Hindenburg media 265 metros de comprimento.

Hindenburg sobrevoando Santa Cruz, enquanto o hangar ainda estava em construção (MUSAL)

Hindenburg sobrevoando Santa Cruz, enquanto o hangar ainda estava em construção (MUSAL)

A construção foi finalizada em pouco mais de dois anos e as operações foram iniciadas quase que imediatamente. Para entrar no hangar, o dirigível primeiro precisava ser atracado a uma torre sobre trilhos, que em seguida puxava a aeronave para o interior do abrigo. Uma vez lá dentro, funcionários podiam inspecioná-los de cima a abaixo em busca de danos, a partir de torres e passarelas, e abastecê-lo com hidrogênio, gás mais leve que o ar que fazia as enormes máquinas flutuarem – e também perigosamente inflamável.

Os processos de embarque e desembarque de passageiros também eram realizados no hangar. O local ainda contava com instalações de descanso para os tripulantes dos Zeppelin, além de uma fábrica de hidrogênio. O reservatório da instalação está preservado no mesmo local.

Os dirigíveis Zeppelin são até hoje as maiores aeronaves colocadas em operação na história (Airway)

Os dirigíveis Zeppelin são até hoje as maiores aeronaves colocadas em operação na história (Airway)

O hangar em Santa Cruz, uma região plana, é uma estrutura que pode ser vista de muito longe. A construção tem 274 metros de comprimento, 58 m de altura e outros 58 m de largura. É espaço suficiente para enfileirar quase quatro jatos Airbus A380, o maior avião de passageiros do mundo – desconsiderando a envergadura das asas, de 79 metros.

O portão sul, o principal, abre-se em toda a altura do hangar e possui duas portas de 80 toneladas cada uma. Estas portas ainda são abertas por potentes motores elétricos ou alternativamente, de forma manual por manivelas. Já as instalações elétricas eram todas revestidas por uma blindagem especial para evitar o surgimento de qualquer fagulha, que poderia causar um incêndio catastrófico nos dirigíveis.

Pouco uso

Quando o Aeroporto Bartolomeu Gusmão foi construído, o governo brasileiro exigiu da companhia alemã que os Zeppelin deveriam voar para o Brasil por no mínimo 30 anos e prévia a realização, com o aumento do mercado, de até 30 voos por ano, a médio e longo prazo. A operação, porém, não durou nem meio ano…

O projeto dos Zeppelins foi cancelado após o grave acidente com o Hindenburg, em Nova Jersey, nos Estados Unidos, em maio de 1937. Ao mesmo tempo começava a turbulência política na Europa que acabaria eclodindo a Segunda Guerra Mundial, sendo a justamente a Alemanha, na época governada por Adolf Hitler, o pivô de todo o conflito.

O aeroporto em Santa Cruz tinha o apoio de um linha de trem, algo raro até hoje no Brasil (MUSAL)

O aeroporto em Santa Cruz tinha o apoio de uma estação de trem, algo raro até hoje no Brasil (MUSAL)

Quando os voos dos dirigíveis para o Brasil foram cancelados, o Graf Zeppelin, posteriormente desmontado, havia realizado cinco pousos no Aeroporto Bartolomeu Gusmão, e o Hindenburg, apenas quatro.

Mais adiante, em 1942, com o Brasil entrando no conflito mundial a favor dos Aliados, o aeroporto e o hangar foram desapropriados da administração alemã e transformando na primeira base da então recém-formada Força Aérea Brasileira (FAB).

Durante a Segunda Guerra Mundial, o enorme hangar voltou a receber dirigíveis, no caso os “blimps” de patrulha marítima da Marinha dos Estados Unidos, que ficou baseada em Santa Cruz. Era a época de caça aos submarinos do Eixo, que afundaram dezenas de embarcações pela costa brasileira.

Graf Zeppelin sobrevoando o Rio de Janeiro (MUSAL)

Graf Zeppelin sobrevoando o Rio de Janeiro (MUSAL)

Após a guerra, o hangar em Santa Cruz passou a abrigar as diferentes gerações dos caças do grupo Senta Púa – dos P-47 aos jatos F-5 -, além de oferecer uma generosa sombra no calor carioca para a realização de trabalhos de manutenção em aeronaves.

Único no mundo com tal porte, o antigo hangar do Zeppelin no Rio de Janeiro foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), em 1998, e pode ser visitado pela população – as visitas devem ser agendadas na BASC.

Festa, livro e show do “Led Zeppelin”

Devido a proximidade com as festas de final de ano, a Aeronáutica celebrou os 80 anos do hangar em Santa Cruz no final de novembro, e o Airway foi um dos convidados.

A ocasião foi marcada por uma exposição de fotos antigas do tempo em que os Zeppelins visitaram o Brasil, reunidas pelo Museu Aeroespacial (MUSAL) do Rio de Janeiro, e o lançamento do livro “No céu do Rio – Registro histórico do Zepellin no Rio de Janeiro” (Editora Poço Cultural), publicado em três idiomas (português, inglês e alemão).

O ponto alto da festa, e também o mais barulhento, foi o show da banda No Quarter, cover do Led Zeppelin, tocando os maiores clássicos do grupo britânico nas dependências do hangar, algo que nem mesmo Robert Plant e companhia fizeram algum dia…

A banda cover de Led Zeppelin tocou na festa de 80 anos do hangar em Santa Cruz (Thiago Vinholes)

A banda cover de Led Zeppelin tocou na festa de 80 anos do hangar em Santa Cruz; ao fundo um P-3 (Thiago Vinholes)

Nota do editor: A última semana de dezembro de 1936 foi das mais agitadas no Rio de Janeiro. Quatro dias após a inauguração do Aeroporto Bartolomeu Gusmão, Getúlio Vargas também fez as honras de inaugurar o Aeroporto Santos-Dumont, no então recém-construído aterro do Flamengo.

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