O Ford Flivver foi uma tentativa de Henry Ford se criar um avião popular, tal como o Ford T (Domínio Público)

O Ford Flivver foi uma tentativa de Henry Ford de criar um avião popular (Domínio Público)

Algumas das maiores fabricantes de automóveis do mundo também já se arriscaram a sair do chão. Fosse por necessidade em tempos de guerra ou até mesmo por pura curiosidade sobre o assunto, montadoras tradicionais como Ford e Mitsubishi desenvolveram aviões civis e militares que cumpriram importantes papeis no passado.

Esse “intercâmbio” entre a superfície e o ar ainda acontece e vem gerando bons frutos, como é o caso do jato executivo HondaJet e os caças de última geração da Saab. Conheça a seguir os principais exemplos de fabricantes de carros que um dia já decolaram ou que ainda voam:

Os aviões de Henry Ford

Poucos sabem, mas Henry Ford também foi um dos pioneiros da aviação. Em 1909, o famoso magnata dos Estados Unidos bancou o desenvolvimento de um pequeno monoplano, o “Ford-Van Auken 1909 Monoplane”. A aeronave utilizava uma versão simplificada do motor do Ford T, o primeiro automóvel produzido em série (a partir de 1908), e foi o pontapé inicial para uma série de projetos aeronáuticos da fabricante baseada em Dearborn.

O Ford-Van Auken 1909 Monoplane foi um dos primeiros aviões da história (Domínio Público)

O Ford-Van Auken 1909 Monoplane foi um dos primeiros aviões da história (Domínio Público)

O avião mais famoso da empresa foi o “Ford Trimotor”, uma elegante aeronave impulsionada por três motores. O aparelho voou pela primeira vez em 1926 e foi considerado um dos mais avançados de seu tempo, o que despertou o interesse de companhias aéreas e forças aéreas do mundo todo. Em sete anos de produção, a Ford entregou 199 modelos desse tipo.

O Trimotor podia transportar até 10 passageiros e alcançava a velocidade máxima de 241 km/h. Sua autonomia também era uma das maiores da época: o avião de passageiros da Ford podia realizar viagens de quase 1.000 km sem precisar reabastecer.

O Ford Trimotor foi um dos aviões comerciais de maior sucessos nos anos 1920 e 1930 (EAA)

O Ford Trimotor foi um dos aviões comerciais de maior sucessos nos anos 1920 e 1930 (EAA)

Henry Ford também tentou repetir o conceito do Ford T, um carro popular, na aviação. A ideia era criar um avião pessoal para ser utilizado tal como um automóvel. Esse projeto, também de 1926, originou o protótipo “Ford Flivver”, um pequeno avião construído com estrutura tubular de aço e fuselagem e asas de madeira. Mas pilotar um avião não era tão fácil quanto guiar um carro…

A Ford construiu quatro protótipos do Flivver, mas o projeto acabou cancelado após um acidente na Flórida que ceifou a vida do piloto de testes Harry J. Brooks, que era amigo pessoal de Henry Ford. Abalado com a perda do amigo, Ford acabou desistindo da ideia do “avião para as massas”.

Após um acidente fatal na Flórida, o projeto do Flivver foi abandonado (Domínio Público)

Após um acidente fatal na Flórida, o projeto do Flivver foi abandonado (Domínio Público)

Os temíveis aviões da Mitsubishi

Nos primeiros anos da Segunda Guerra Mundial o nome “Zero” causava arrepios nas forças de defesa aliadas baseadas no Oceano Pacífico. Em 1940, a Mitsubishi Motors iniciou a produção do caça A6M Zero, que foi uma das armas do Japão mais temidas no conflito mundial.

O Zero foi o caça japonês mais famoso da Segunda Guerra Mundial (Domínio Público)

O Zero foi o caça japonês mais famoso da Segunda Guerra Mundial (Domínio Público)

O Zero (ou “Reisen”, como os japoneses o chamavam) era um avião extremamente manobrável e com alto poder fogo. Além disso, também podia operar a partir de porta-aviões. O modelo superava os melhores caças americanos e ingleses do início do conflito e foi produzido em larga escala, alcançando quase 11 mil unidades até o final da guerra, em 1945.

Ainda durante a Segunda Guerra Mundial, a Mitsubishi desenvolveu uma série de outros caças, hidroaviões, aviões de reconhecimento e bombardeiros, como o G4M “Betty”.

O Mitsubishi F-1foi o primeiro avião japonês supersônico; podia voar a 1.700 km/h (Divulgação)

O Mitsubishi F-1foi o primeiro avião japonês supersônico; podia voar a 1.700 km/h (Divulgação)

Com o final da guerra, a Mitsubishi paralisou totalmente sua divisão de aviões, algo que seria retomado somente nos anos 1970, com o desenvolvimento do caça a jato F-1, que foi o primeiro avião japonês capaz de superar a velocidade do som.

Atualmente, a Mitsubishi está na fase final de certificação do jato de passageiros MRJ, que deve entrar em operação em meados de 2017. Quando chegar ao mercado, o novo jato japonês será um dos concorrentes dos E-Jets da Embraer.

O MRJ 90 completou recentemente seu primeiro; a aeronave chega ao mercado em 2017 (Mitsubishi)

O MRJ 90 completou recentemente seu primeiro; a aeronave chega ao mercado em 2017 (Mitsubishi)

O caça da General Motors

O grupo General Motors possui uma série de marcas de carros, como a Chevrolet e a Cadillac. O que poucos sabem é que a maior fabricante de automóveis dos EUA também já teve uma divisão dedicada a projetos aeronáuticos, a “Fisher Body”.

Durante a Segunda Guerra Mundial, fábricas de carros da GM nos EUA foram convertidas para produzirem aviões, como o Grumman TBF Avenger e até o lendário bombardeiro B-29, a “Superfortaleza Voadora”. Novos projetos eram encomendados às fabricantes aeronáuticas do país até que chegou um ponto onde todas estavam ocupadas demais.

O caça da GM era especializado em missões de grandes altitudes (Domínio Público)

O caça da GM era especializado em missões de grandes altitudes (Domínio Público)

A alternativa foi encomendar um avião a uma fabricante de carros. Em outubro de 1942, a GM foi contratada pelo exército dos EUA para desenvolver um caça capaz de voar a grandes altitudes. O projeto foi repassado a Fisher Body, divisão da GM que até então era especializada na construção de carroças de tração animal e carrocerias para automóveis.

Em novembro de 1943, a GM apresentou os dois primeiros protótipos do Fisher XP-75 “Eagle”, uma avião que mais parecia um “Frankenstein”. A asa da aeronave era uma adaptação da mesma usada no North American P-51 Mustang e a fuselagem e cauda vinham do Bell P-39 Aircobra. O Eagle também possuía partes do caça Curtiss P-40 e do bombardeiro Douglas A-24.

A GM construiu 18 protótipos do Eagle, mas o avião nunca entrou em operação (Domínio Público)

A GM construiu 18 protótipos do Eagle, mas o avião nunca entrou em operação (Domínio Público)

O avião da GM foi equipado com um dos motores aeronáuticos mais potentes dos anos 1940, um Allisson (modelo V-3420) com 24 cilindros e cerca de 2.500 cavalos de potência. O motor movia duas hélices, que giravam em sentidos opostos, e o desempenho agradou os pilotos: o avião podia alcançar quase 700 km/h e podia voar a mais de 11 mil metros de altitude.

Mas a GM, definitivamente, não sabia como construir aviões. Os protótipos apresentaram uma série de falhas como problemas de estabilidade e má distribuição de peso. O programa de testes durou mais de dois anos e foram construídos 18 aparelhos, todos sem sucesso. No final de 1944, sem resultados significativos, o exército dos EUA cancelou o projeto.

Fiat Aviazione

A Fiat Aviazione é quase tão antiga quanto a divisão de automóveis. Fundada em 1908, quase que logo após a invenção do avião, a empresa italiana começou primeiro fabricando motores específicos para aviões. Já a sua primeira aeronave voaria somente em 1930.

O biplano AN.1 foi o primeiro avião fabricado pela Fiat; apenas uma unidade foi completada (Domínio Público)

O biplano AN.1 foi o primeiro avião fabricado pela Fiat; apenas uma unidade foi completada (Domínio Público)

O primeiro avião produzido pela Fiat foi o biplano de reconhecimento militar e equipado com motor diesel, o modelo “AN.1”. Esse aparelho, porém, não vingou, mas serviu para mergulhar a empresa italiana na aviação, onde criaria quase 100 aeronaves diferentes, entre modelos produzidos em série e protótipos que não foram adiante.

Durante a Segunda Mundial, os céus da Itália eram vigiados por caças da Fiat Aviazione, como as séries G.50 e G.55. Nessa mesma época a Fiat também projetou uma diversos aviões comerciais, tais como o trimotor G.212. Com o final do conflito, a Fiat iniciou seus primeiros trabalhos com aviões a jato, tanto que em 1951 decolou o primeiro protótipo do G.80/G.82, que foi o primeiro jato desenvolvido pela indústria italiana.

A aeronave mais famosa desenvolvida pela Fiat foi o caça-bombardeiro G.91. Introduzido em 1958, o modelo militar foi adquirido por forças aéreas na Europa, como Alemanha e Portugal.

O Fiat G.91 era um caça-bombardeiro de performance subsônica (Luftwaffe)

O Fiat G.91 era um caça-bombardeiro de performance subsônica (Luftwaffe)

Em 1969, a Fiat Aviazione se fundiu a Aerfer (que fabricava aviões e trens) e formou a Aeritalia. Já em 1990, a empresa se uniu desta vez a Selenia e foi novamente renomeada, desta vez para Alenia Aeronautica, atualmente o principal grupo aeroespacial da Itália. A Fiat também produziu helicópteros.

HondaJet

A Honda é uma empresa que atua em diversas frentes: produz automóveis e motocicletas, cortadores de grama, geradores compactos, o robô Asimo e, mais recentemente, colocou no mercado um dos aviões executivos mais badalados do segmento, o HondaJet.

O HondaJet é um jatos executivos mais badalados do momento (Honda Aircraft)

O HondaJet é um jatos executivos mais badalados do momento (Honda Aircraft)

Desenvolvido para transportar até seis passageiros, o avião da Honda despertou grande interesse do mercado e já tem mais de 200 unidades encomendadas no mundo inteiro. Seu desenvolvimento, porém, foi dos mais complexos e durou quase 20 anos. Mas pelo visto valeu a pena.

O HondaJet, atualmente avaliado em US$ 4,5 milhões, alcança a velocidade máxima de 778 km/h e tem autonomia para cerca de 1.800 km. Tal performance e porte, coloca o avião da Honda na concorrência direta com o Phenom, um dos principais produtos da Embraer.

Os estranhos e originais aviões da SAAB

Mais conhecida fabricante de carros da Suécia, a Saab iniciou seus trabalhos justamente com aviões. Fundada em 1937, a empresa logo apresentou seus primeiros projetos, como o bombardeiro B-17 (que não tem nenhuma relação com o Boeing B-17) e o caça J 21. O primeiro carro do grupo escandinavo foi lançado apenas em 1945, o modelo Saab 96.

Trio supersônico da Suécia: na imagem os caças Viggen, Draken e o Gripen (Força Aérea da Suécia)

Trio supersônico da Suécia: na imagem os caças Viggen, Draken e o Gripen (Divulgação)

Como a Suécia é um país neutro (que não assume nenhum lado em uma guerra), a Saab se tornou a empresa responsável por proteger os céus do país, tarefa que vem realizando com maestria e produtos de alta tecnologia desde o final da Segunda Guerra Mundial.

O principal avião da Saab hoje é o Gripen NG, que foi escolhido como o novo caça de defesa aérea da Força Aérea Brasileira (FAB). Mas até chegar ao caça de última geração, os suecos desenvolveram uma série de importantes aviões, civis e miliares, como os caças Viggen e Draken, e o turbo-hélice comercial Saab 3400.

Os primeiros Gripen NG chegam ao Brasil a partir de 2019 (FAB)

Os primeiros Gripen NG chegam ao Brasil a partir de 2019 (FAB)

O jipe da Boeing

Fabricantes de aviões também já se arriscaram no mundo dos automóveis. O exemplo mais recente é a Boeing, que desenvolveu um jipe que pode ser transportado pela aeronave de rotores basculantes V-22 Osprey (que também foi projetado pela Boeing).

O jipe da Boeing foi concebido para ser transportado a bordo do V-22 Osprey (Boeing)

O jipe da Boeing foi concebido para ser transportado a bordo do V-22 Osprey (Boeing)

Trata-se do Phantom Badger, um jipe de combate compacto. O aparelho entrou em serviço em 2014 e atualmente é empregado pela USAF (Força Aérea dos EUA) e o Marine Corps (Fuzileiros Navais dos EUA). O veículo tem tração 4×4 e até motor “flex”, no caso a diesel ou “JP8”, um combustível a base de querosene de aviação. Segundo a Boeing, o Badger (texugo) pode alcançar a velocidade máxima de 88 km/h e transportar até 3.500 kg de carga.

O buggy lunar da Nasa foi fabricado pela Boeing em parceria com a GM (Nasa)

O buggy lunar da Nasa foi fabricado pela Boeing em parceria com a GM (NASA)

Curiosamente, esse não o primeiro veículo de quatro rodas feito pela Boeing. Nos anos 1970, a empresa construiu em conjunto com a General Motors o buggy lunar usado pela Nasa nas missões Apollo 15, 16 e 17, entre 1971 e 1972.

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