As asas de geometria variável ajudaram na escolha do Xá do Irã, que as achou interessantes

As asas de geometria variável ajudaram na escolha do Xá do Irã, que ficou encantado com avião. O F-15, porém, era melhor

No início da década de 1970, o último Xá do Irã, Mohammad Reza Pahlavi, estava empenhado em substituir os caças F-4 Phantom em operação na Força Aérea Imperial Iraniana por aeronaves mais modernas. Após a visita do Presidente americano, Richard Nixon, ao Irã, em 1972, onde ao Xá foi oferecido o que havia de mais moderno em tecnologia militar norte-americana, os militares persas estreitaram sua escolha entre duas aeronaves: o Grumman F-14 Tomcat e o McDonnell Douglas F-15 Eagle.

Em história pesquisada pela revista The Aviationist, uma série de reuniões foi realizada no palácio do Xá, em Teerã, com a presença de representantes da USAF (Força Aérea dos EUA) e da US Navy (Marinha dos EUA), operadores das aeronaves propostas, cada um defendendo a sua aeronave.

Depois de muitas idas e vindas, as autoridades iranianas decidiram que a escolha do seu novo caça se daria através de uma rápida competição de fly-off, onde os aviões exibem suas capacidades máximas de manobra e aceleração.

A demonstração de voo ocorreu em julho de 1973, na Base Aérea de Andrews, no Estado de Maryland, e entre os espectadores estava o Xá em pessoa. Pelas regras estipuladas, cada aeronave teria no máximo 15 minutos para efetuar sua apresentação.

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Aguardando a sua vez, a bordo do F-14, estavam Don Evans, como piloto, e Dennis Romano, oficial de armas, ambos da equipe de testes da Grumman.

O F-15 era superior, mas acabou perdendo a disputa lançada pelo Irã

O F-15 era superior, mas acabou perdendo a disputa lançada pelo Irã

Enquanto o F-15 taxiava na pista, os tripulantes do F-14 deram partida em sua aeronave. Durante toda a apresentação do Eagle, Don e Dennis aproveitaram para aquecer os motores do Tomcat. Eles sabiam que, em comparação ao F-14, o F-15 possuía uma melhor relação peso/potência, e, queimando um pouco de combustível, espertamente, aproveitaram para diminuir essa vantagem.

Como é uma curva "Immelmann"

Como é uma curva “Immelmann”

O plano de voo foi o mesmo para ambas as aeronaves e consistia em uma série de manobras iniciadas com uma decolagem de alta performance, seguido por uma “Curva Immelman”, depois uma descida para uma passagem em alta velocidade, a execução de duas curvas com alto G, seguidas por uma passagem em baixa velocidade já na configuração de pouso, e a aterrissagem em si.

Segundo testemunhas, a apresentação do F-15 foi espetacular, não só devido à força bruta da aeronave, mas também ao expertise do piloto, que demonstrou toda a sua habilidade, tendo puxado 7 G numa curva de 360 graus.

Ao término da apresentação, havia uma sensação de “já ganhou”, haja vista todos eram bem conscientes que os fracos motores TF-30 do F-14 não proporcionariam ao Tomcat a mesma relação peso/potência do Eagle.

Cientes do grande desafio que os aguardava, Don e Dennis já haviam queimado bastante combustível, deixando na aeronave apenas uma quantidade mínima, suficiente apenas para realização da apresentação (cerca de 1.135 kg). Isso equivalia a cerca de 1/8 da capacidade de combustível do F-14. Mais leve, essa condição fez com que o caça ficasse com uma relação peso/potência equivalente a do F-15, que era definitivamente o melhor caça desse tempo.

O Tomcat, entretanto, possuía algo que o Eagle não tinha. A beleza da geometria variável de suas asas fariam toda a diferença durante a apresentação.

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O F-14 encolhe as asas para poder voar mais rápido

O F-14 encolhe as asas em formato delta para poder voar mais rápido (Foto – USAF)

Com os pós-combustores dos motores ao máximo, o F-14 decolou para realizar as mesmas manobras que o seu rival. Durante a passagem em alta velocidade, a tripulação do Tomcat decidiu alterar o posicionamento das asas saindo do enflechamento em delta para a abertura máxima, produzindo uma grande nuvem de vapor por fora da asa, devido à onda de choque.

Na sequência, com as asas enflechadas a 40 graus e os motores soltando fogo, Don Evans puxou 8 ½ G numa curva de 360 graus, acelerando para 400 nós (cerca de 740 km/h). A platéia ficou chocada!

Para terminar a apresentação, Don e Dennis acrescentaram um TGL (manobra de toque e arremetida). Ao contato dos trens de pouso principais com a pista, os pós-combustores foram acionados ao máximo e o Tomcat subiu praticamente na vertical. Nesse momento, eles ficaram praticamente sem combustível.

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Na sequência, encerrando com chave de ouro, eles realizaram um pouso embarcado, parando a aeronave com 300 metros de pista, como se estivessem em um porta-aviões.

Àquela altura, o Xá, que nem se lembrava mais da apresentação do F-15, entusiasmado, caminhou em direção ao Tomcat para saudar os seus tripulantes. Estava decidido. O Grumman F -14 havia sido escolhido como o próximo caça do Irã.

O Irã é atualmente o único país que ainda utiliza o F-14. A versão naval do US Navy foi aposentada em 2006

O Irã é atualmente o único país que ainda utiliza o F-14. A versão naval do US Navy foi aposentada em 2006

Don Evans, piloto de testes da Grumman, comandou a apresentação do F-14 que encantou o Xá, em julho de 1973. Ele também foi o principal instrutor das futuras tripulações da Força Aérea Imperial Iraniana para o Tomcat.

Em janeiro de 1974 o Irã lançou um pedido inicial para 30 unidades do F-14 e 424 unidades do míssil AIM-54 Phoenix, que pode atingir aeronaves a 130 km de distância. Poucos meses mais tarde, essa quantidade foi ampliada para um total de 80 aeronaves e 714 mísseis, além de um pacote de armamento completo, peças de reposição e motores sobressalentes, suficientes para 10 anos de operação. Também foi contratado um pacote de apoio logístico que incluiu a construção da Base Aérea de Khatami.

Imagem do primeiro esquadrão iraniano que voou com o F-14

Imagem do primeiro esquadrão iraniano que voou com o F-14 (Foto – IRIAF)

Os F-14 adquiridos pelo Irã foram modificados para remoção de componentes aviônicos secretos, e equipados com motores Pratt & Whitney TF-30-414. A entrega das aeronaves foi iniciada em janeiro de 1976. Dos 80 caças produzidos para a força aérea persa (números de série 160.299 ao 160.378), a última não chegou a ser entregue, permanecendo nos EUA após a Revolução Islâmica de 1979.

Após a queda do Xá em 1979, a Força Aérea do Irã foi reestruturada, tendo recebido a designação de IRIAF (Islamic Republic of Iran Air Force). Um ano mais tarde, essas aeronaves foram usadas na guerra Irã-Iraque, mas essa já é uma outra história…

Fonte: Cavok Brasil