Boeing 747-400 da Varig: maior companhia aérea desaparecia há 10 anos

Boeing 747-400 da Varig: maior companhia aérea desaparecia há 10 anos

“Varig, Varig, Varig” era o famoso slogan da companhia aérea que representou durante décadas a imagem do Brasil no exterior. Fundada em 7 de maio de 1927, a Varig teve uma carreira cheia momentos de glória, mas também carregada de polêmicas e episódios controversos.

Há exatos dez anos, no entanto, a Varig entrava na sua agonia final ao ser vendida em leilão para a Varig Logística após um longo e intricando processo de salvar a empresa. Uma semana depois, cerca de 5 mil funcionários foram demitidos e nos meses seguintes após o negócio, a Varig foi desaparecendo aos poucos, primeiros com o fim dos voos internacionais no início de agosto e no ano seguinte com a venda da marca “Varig” para a Gol.

Embora tenha sobrevivido seja nos voos ou aeronaves pintadas com suas cores, a Varig, como foi concebida, já não existia mais. Veja a seguir alguns fatos relevantes da empresa desde sua fundação

1927

A Varig é fundada em Porto Alegre por um imigrante alemão, Otto Ernst Meyer. A sigla significa Viação Aérea Rio-Grandense e foi uma das primeiras companhias aéreas do mundo. O primeiro avião foi um hidroplano, o Dornier Wal, capaz de transportar nove pessoas.

Dornier Wal "Atlântico", o primeiro avião da Varig

Dornier Wal “Atlântico”, o primeiro avião da Varig

1932

Chega o primeiro avião “terrestre” o também alemão Junkers A-50 e, em seguida, o Junkers F-13.

1937

A Varig recebe o primeiro Junkers Ju-52, com capacidade para 17 passageiros. Na época, a empresa voava apenas dentro do Rio Grande do Sul.

1941

Com a Segunda Guerra, o fundador da Varig, de origem alemã, passa o comando da empresa para o funcionário Rubem Berta, gaúcho que foi seu primeiro empregado. Com ele, a companhia começa a ganhar visibilidade.

1942

A Varig inaugura seu primeiro voo internacional, entre Porto Alegre e Montevidéu, no Uruguai, graças aos aviões ingleses DeHavilland Dragon Rapide. Em fevereiro, um Junkers JU-52 cai logo após a decolagem matando os 23 ocupantes.

DeHavilland Dragon Rapide

DeHavilland Dragon Rapide

1946

Como outras companhias, a Varig se beneficia do espólio da guerra e adquire vários aviões DC-3 e C-46. A empresa começa a voar para cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Florianópolis e Curitiba.

1953

O voo para Montevidéu é estendido até Buenos Aires, segundo destino internacional. Na época, a Varig já voava para o Nordeste, mas os planos mais ambiciosos eram a primeira rota para os Estados Unidos.

1955

Parte do Rio de Janeiro o primeiro voo da Varig com destino a Nova York a bordo do então moderno Lockheed Constellation, um quadrimotor de linhas inconfundíveis.

1959

A Varig introduz os primeiros jatos comerciais no país, os franceses Sud-Aviation Caravelle, que assumiram a rota para Nova York. No ano seguinte, no entanto, o Boeing 707 estreava no Brasil, trazendo um novo padrão de voos a jato.

Caravelle, o primeiro jato a voar numa companhia brasileira

Caravelle, o primeiro jato a voar numa companhia brasileira

1961

Começa a fase de aquisições. A então maior companhia aérea nacional, a Real Aerovias, é comprada pela Varig que mais do que dobra de tamanho. A empresa então já operava em cidades como Los Angeles, Miami e Caracas, entre outras, e era cliente do raro jato Convair Coronado.

Um dos três Convair Coronado usados pela Varig em rotas internacionais na década de 60

Um dos três Convair Coronado usados pela Varig em rotas internacionais na década de 60

1962

Chegam ao país os primeiros Lockheed Electra II, turboélice de quatro motores que teve um início de carreira conturbado nos Estados Unidos, com acidentes seguidos. No Brasil, no entanto, eles se mostraram confiáveis e úteis tornando-se o avião padrão da ponte aérea Rio-São Paulo por vários anos. Por outro lado, um Boeing 707 num voo entre o Rio e Lima atinge uma montanha matando os 97 passageiros e tripulantes.

Electra PP-VLA chegou à Varig originalmente como cargueiro

Electra PP-VLA chegou à Varig originalmente como cargueiro

1965

Já na época da ditadura militar, a Varig recebeu do governo as rotas e aviões da Panair do Brasil, companhia aérea que voava sobretudo para a Europa.

A Panair do Brasil chegou a ter 20 Douglas DC-3, que depois seriam repassados à Varig

A Panair do Brasil chegou a ter 20 Douglas DC-3, que depois seriam repassados à Varig

1966

O presidente Rubem Berta falece no final do ano. Ele deixou o maior legado para a Varig, a fundação que levava seu nome e que passou a controlar a empresa.

1967

Um DC-8 vara a pista do aeroporto de Monrovia, na Liberia (África). Morrem 56 pessoas, incluindo moradores da área.

Rubem Berta: de funcionário a presidente que revolucionou a Varig

Rubem Berta: de funcionário a presidente que revolucionou a Varig

1968

A Varig passa a voar para Tóquio, no Japão, na sua mais longa rota. Nesse período, ela já tinha praticamente o monopólio das linhas internacionais o que acabou tornando-se um fato consumado quando assumiu a Cruzeiro do Sul em 1975.

1971

Chega ao Brasil o primeiro Boeing 727, um trirreator para voos nacionais de longo alcance.

1973

Um dos desastres mais marcantes da empresa. Um Boeing 707 vindo do Rio de Janeiro faz um pouso de emergência a poucos quilômetros do aeroporto de Orly em Paris. A causa teria sido um cigarro que incendiou o toilete da aeronave. Das 134 pessoas a bordo, 123 morrem incluindo personalidades brasileiras.

1974

O McDonnell Douglas DC-10 é o primeiro wide-body a voar em uma companhia brasileira. Ele substitui o 707 nas rotas mais importantes da Varig.

1975

A Varig assume a Cruzeiro do Sul, companhia também de origem alemã e fundada no mesmo ano. O governo então proíbe que outras companhias voem para o exterior de forma regular, uma medida que beneficiava estranhamente uma empresa de capital privado.

1976

Com o avanço dos jatos na aviação, rotas de baixa demanda operadas por pequenos aviões a hélice são deixadas de lado. Com isso, o governo cria o plano SITAR, que nomeou cinco companhias regionais para cobrir o território nacional. Cada uma voaria sozinha em seus domínios com raras exceções. Tanta Vasp e Transbrasil como a Varig viraram sócias desses empresas. No caso da última, criou-se a Rio-Sul, responsável pela região Sul e alguns pontos no Sudeste.

1979

Outro Boeing 707, agora cargueiro, comandado pelo mesmo piloto do acidente de Orly desaparece após decolar de Tóquio. Até hoje seu paradeiro é desconhecido.

1981

Já famosa pelo serviço de bordo e qualidade de seus serviços, a Varig recebe o primeiro Boeing 747, o famoso “Jumbo”, que passa a ser seu principal avião em voos internacionais.

Boeing 747 da Varig: a pioneira dominou a aviação no Brasil a partir da década de 60 (Contri)

Boeing 747 da Varig: a pioneira dominou a aviação no Brasil a partir da década de 60 (Contri)

1985

Chegam dois Boeing 747-300, versão com piso superior estendido. A Varig, então, passa a operar parte de seus voos para exterior do Aeroporto de Guarulhos, além do Galeão, seu hub principal.

1987

Durante um voo entre Abidjan, na África, e o Galeão, um 707 cai após um motor falhar na decolagem. Apenas um dos 51 ocupantes sobrevive.

1989

Durante um jogo de eliminatórias da Copa de 1990, um Boeing 737-200 da Varig se perde na Amazônia e acaba fazendo um pouso às cegas, vitimando 13 pessoas.

1990

A Varig entrou nos anos 90 como uma potência. Além da companhia aérea, era dona de rede de hotéis, centros de manutenção, empresas cargueiras e que cuidavam do apoio em terra dos aviões. Mas foi justamente nessa época que os problemas acumulados durantes anos começaram a surgir. Inchada e pouco ineficiente por conta dos privilégios nas rotas para o exterior, a empresa não conseguiu reagir ao crescimento de novas companhias como a TAM, que passou a operar jatos regionais de aeroportos centrais, e mesmo das tradicionais concorrentes como a Transbrasil que passava a voar para os Estados Unidos neste ano, quebrando seu monopólio.

O Boeing 747-300 da Varig em Zurique: monopólio internacional de 1975 a 1990

O Boeing 747-300 da Varig em Zurique: monopólio internacional de 1975 a 1990

1991

Seguindo seu plano de renovação, a Varig recebe os dois primeiros MD-11, uma versão moderna do DC-10.

O MD-11, versão avançada do DC-10, foi a base dos voos para o exterior na década de 90

O MD-11, versão avançada do DC-10, foi a base dos voos para o exterior na década de 90

1992

Tentando reagir ao avanço da TAM no segmento executivo, que pagava mais pelas passagens, a Varig investe na Rio-Sul que recebe os primeiros Boeing 737-500 para competir com os Fokker 100.

1993

Na busca por novas receitas, a empresa cria a Varig Log, braço de cargas que adaptou aeronaves Boeing 727 e DC-10.

1996

O declínio da Varig começa a virar realidade com o primeiro resultado financeiro negativo. Em busca de renovar sua imagem, a companhia decide aposentar o esquema de pintura e a logomarca da rosa dos ventos, utilizados há décadas. Em seu lugar, um visual mais moderno e chamativo.

MD-11 da Varig com a nova pintura criada em 1996

MD-11 da Varig com a nova pintura criada em 1996

1997

A Varig passa a fazer parte da Star Alliance, grupo de empresas aéreas que passava a trabalhar em conjunto oferecendo mais voos e destinos que qualquer outra companhia.

1998

Não apenas a Varig, mas Vasp e Transbrasil sofreram com a concorrência da TAM. A empresa do Comandante Rolim deixava de ser uma regional para voar para quase todo o país em meados da década de 90. Neste ano, a TAM dava um passo ainda maior ao estrear seus primeiros voos intercontinentais com os novos Airbus A330. Um duro golpe para a Varig.

2001

Com a Vasp quebrada e a Transbrasil deixando de voar neste ano, a Varig parecia ser a bola da vez com dívida crescente e sem que reformas estruturais pudessem tirá-la daquela situação, afinal isso exigiria cortes de funcionários, que eram donos dela. A crise no setor surgida após o ataque de 11 de Setembro foi a pá de cal para as pretensões do setor. Ainda assim, a companhia inovou ao trazer o Boeing 777 para sua frota. Mas na mesma época outra companhia surgiria para dificultar ainda mais a vida da Varig, a Gol e sua proposta ‘low-cost’.

2003

Com 4 bilhões de reais devidos pelo governo federal a ela e sem condições de recebê-los, a Varig é incentivada a participar de uma fusão com a TAM, que acabou se resumindo a um code-share logo encerrado.

2004

Mesmo endividada, a empresa buscava manter seu status e para isso promoveu uma fusão com suas companhias regionais, a Rio-Sul e a Nordeste, que havia sido comprada em 1995. Nesse ano, a rota para a China foi inaugurada com seus maiores aviões, os Boeing 747-400 e os primeiros Boeing 757 incorporados no que viria a ser um dos últimos movimentos importantes da Varig.

Boeing 757 cargueiro da VarigLog (foto: http://runway15.blogspot.com.br/)

Boeing 757 cargueiro da VarigLog (foto: http://runway15.blogspot.com.br/)

2005

Após quinze anos de prejuízos consecutivos, a Varig entra em recuperação judicial. A TAP adquire nesse ano a Varig Log e a VEM, braço de manutenção da empresa.

2006

Sem conseguir negociar suas dívidas, a Fundação Rubem Berta busca um sócio para investir dinheiro na Varig, mas os credores barram as tentativas por acharem os valores baixos. Sem interessados, a Varig é dividida em duas empresas, a antiga, com as dívidas, e a “Nova Varig” com os poucos ativos então disponíveis. Essa empresa é leiloada em julho para a Varig Log, única a fazer uma oferta.

2007

O que sobrou da Varig acaba sendo comprado pela Gol em abril, que almejava uma expansão internacional ao utilizar a imagem famosa no exterior. Na prática, o negócio não surtiu efeito e a Gol acabou absorvendo o pouco que restou da então mais famosa companhia aérea brasileira.

Já nas mãos da Gol, a "nova Varig" utilizou alguns 737 com uma nova pintura (Mutzair)

Já nas mãos da Gol, a “nova Varig” utilizou alguns 737 com uma nova pintura (Mutzair)