As pinturas retrô da aviação

A identidade visual de uma marca é algo muito valioso para qualquer empresa. Que o diga as companhias aéreas. Seus aviões se transformam em imensos outdoors voadores pelo mundo, levando suas cores e logotipos a uma infinidade de pessoas. Por isso, esse é um assunto muito importante para elas. Mudar uma identidade já conhecida e difundida é uma tarefa das mais complicadas, mas às vezes necessária para marcar uma mudança ou fase na vida dessas empresas.

Com o passar do tempo, no entanto, várias companhias aéreas resolvem relembrar o passado e recriar esse visual “retrô” em novas aeronaves. Foi o caso recente da TAP Air Portugal. Dona de um esquema de pintura bastante moderno e marcante, a companhia portuguesa decidiu celebrar seus 72 anos pintando um Airbus A330-300 com as cores usadas até a década de 70, cujo estilo é bem mais discreto que o usado hoje e também na pintura anterior, que foi por décadas a mais conhecida.

O costume de recriar essas pinturas revela que a adoção de estudos de marketing para definir o layout usado não só nas aeronaves mas em toda comunicação visual é algo mais recente, usado com mais frequência a partir da década 70. Até então, era comum que as pinturas tivessem traços simples e pouco criativos. O próprio nome das empresas utilizava fontes de texto e tamanhos pequenos. A espanhola Iberia, por exemplo, tinha como traço mais marcante uma linha vermelha em forma de raio – na cauda, muitas vezes apenas números.

A Aeroflot durante os anos do comunismo levava a bandeira da União Soviética no estabilizador vertical e uma faixa pouco inspirada na fuselagem – design reproduzido há alguns anos num A320 (claro, com a bandeira russa no lugar da foice e martelo). Mas até os americanos, conhecidos pelo marketing agressivo, exibiam esquemas bem apagados em algumas companhias.

Atualmente parte do mesmo grupo, United e Continental tiveram pinturas discretas, para dizer o mínimo. A United chegou a usar um layout com linhas em azul e vermelho e quatro estrelas até o início dos anos 70. Foi quando o belo logotipo de duas letras ‘U’ estilizadas assumiu a fuselagem dos aviões. A Continental conseguiu algo ainda mais apagado na década de 60, utilizando letras de difícil leitura e sem ter uma logomarca clara, o que acabou surgindo com o globo estilizado anos depois.

Para marcar seus 72 anos, a TAP decidiu reeditar suas antigas pinturas (TAP)

Azul inconfundível

Algumas companhias aéreas estão hoje tão identificadas com algumas pinturas que é difícil crer que já foram diferentes. A KLM talvez seja o caso mais famoso. Seus aviões de fuselagem pintada com um azul vivo não têm paralelo em qualquer outra concorrente. Mas o esquema anterior em nada lembrava sua atual identidade. A cor azul já era usada, mas em tons apagados. A Alitalia é outra que mudou da água para o vinho: antes as cores da bandeira italiana estavam na cauda e na fuselagem traços finos em azul – bem menos marcante que as duas faixas verde e vermelha que são usadas há décadas.

Nem todas as companhias buscam suas próprias cores no passado. A American Airlines, por exemplo, decidiu recentemente resgatar a pintura de várias companhias aéreas absorvidas durante sua carreira. Entre elas estão a famosa TWA e a US Airways, mais recente aquisição – claro que levando o nome da American em seus aviões.

E até quem nem tem tanta idade assim resolveu entrar na “brincadeira”. A companhia low-cost americana Jetblue criou uma nova pintura “retrô” há pouco tempo. Sem ter um estilo antigo para se basear, a empresa inventou uma identidade inédita que lembrou bastante a finada companhia britânica British Caledonian, comprada pela sua então concorrente British Airways.

Clima do passado

No Brasil, tivemos algumas das mais belas pinturas de aviões já criadas. Quem não morre de saudades dos aviões da Transbrasil com sua cauda formando um arco-íris? Antes disso, a companhia aérea já se destacava pela frota com pintura heterogênea e colorida. A Cruzeiro do Sul foi outra companhia que soube marcar sua identidade com o símbolo de cinco estrelas e a faixa azul em dois tons que percorria toda a fuselagem – parecida, mas bem melhor resolvida que a americana Eastern.

Mas quem experimentou voltar ao passado foi a TAM em 2010. Ainda nos tempos em que investia na memória aeronáutica, com o Museu Rolim Amaro em pleno funcionamento, a companhia aérea decidiu criar o projeto Vintage. Foram pintados dois Airbus A319 com cores usadas pela TAM na década de 70, quando estreou no mercado regional, e no início dos anos 90, época da chegada do Fokker 100, avião que mudou sua história.

O projeto, no entanto, não se restringia a mudança do visual externo dos aviões. O interior também foi inspirado no passado, assim como nas vestimentas da tripulação, uma ideia genial. Até mesmo o serviço de bordo chegou a ser ambientado nos padrões antigos.

Como se vê, apesar da aura futurista, a aviação comercial também faz bem em lembrar seu passado. Clique em uma das fotos abaixo para abrir a galeria de pinturas retrô: