O EMB R-99 pode encontrar aviões voando a uma distância de até 450 km

O EMB R-99 pode encontrar aviões voando em baixa altitude a uma distância de até 450 km

O radar é a forma mais eficaz para detectar um avião que voa distante. O equipamento, contudo, não é tão efetivo na busca de aeronaves que voam em baixa altitude, na maioria dos casos aviões que não têm autorização para tal, por isso voam “escondidos” dos radares. Para encontrar esse tipo de ameaça não basta um radar baseado no solo, é preciso “instalá-lo” no céu, de modo que seu campo de varredura seja ampliado.

Tal função cabe aos “aviões-radares” ou AEW&C, sigla em inglês para “Avião de Alerta Antecipado e Controle Aéreo”. Esse tipo de aeronave ficou imortalizada pelo Boeing E-3 Sentry, um jato 707 que leva sob a fuselagem uma enorme antena de radar rotativa. Outra versão famosa dessa aplicação é o turbo-hélice Northrop Grumman E-2 Hawkeye, que pode operar em porta-aviões. Essa tecnologia, porém, é cara e poucas forças armadas a possuem.

O Brasil faz parte desse seleto time de forças aéreas que possuem aeronaves AEW&C, no caso o EMB E-99, uma versão do avião comercial EMB-145 adaptada para carregar uma enorme antena na fuselagem. Mas diferente dos E-2 e E-3, o avião usado pela Força Aérea Brasileira não utiliza um radar rotativo, mas sim uma antena plana e fixa com um sistema de busca diferente e melhor adaptado a busca de aviões em baixa altitude.

Os AEW&C mais famosos: Beriev A-10 da Rússia e os norte-americanos Boeing E-3 e o Grumman E-2

Os AEW&C mais famosos: Beriev A-10 da Rússia e os norte-americanos Boeing E-3 e o Grumman E-2

O radar usado no E-99 é o Erieye, desenvolvido pela SAAB. O equipamento possui em seu interior 192 módulos auto-direcionáveis de transmissão e recepção de sinais. Por isso, em vez de uma varredura rotativa convencional (e mais lenta), o equipamento faz uma busca seletiva, podendo acompanhar simultaneamente diferentes aeronaves que voam ao redor da antena. Segundo o fabricante, o equipamento possui um alcance de busca de 350 km a 450 km voando a 7.620 metros.

Vídeo: SAAB explica o funcionamento do radar Erieye

O desenvolvimento do E-99 começou ainda nos anos 1990 como uma exigência do plano SIVAM (Sistema de Vigilância da Amazônia) e o plano original era utilizar o radar embarcado no turbo-hélice EMB-120 Brasília. Com atrasos no projeto, a aplicação do Brasília para essa função se tornou obsoleta e a Embraer decidiu utilizar o jato EMB-145.

O E-99 voou pela primeira vez em 22 de maio de 1999 e estreou o radar Erieye oito meses depois. Considerado operacional, o avião começou a ser entregue a FAB em 2002. Os aviões, cinco ao todo, são operados pelo “Esquadrão Guardião” (2º Esquadrão do 6º Grupo de Aviação) e ficam baseados na base da FAB em Anápolis (GO), prontos para voarem a qualquer ponto do Brasil em poucas horas para efetuar sua missão de busca e controle aéreo.

Transformação

No intuito de carregar a antena, que tem quase de 10 metros de comprimento, a Embraer reforçou a parte superior da fuselagem do EMB-145 e acrescentou winglets nas pontas das asas e nos elevadores para compensar as variações aerodinâmicas causadas pelo radar “pendurado” na aeronave. Para cumprir missões de cunho militar, a fabricante ainda aumentou a capacidade de combustível do avião e também o equipou com lançadores de chaff e flares, recursos usados para enganar mísseis inimigos (guiados por radar ou calor).

O radar SAAB Erieye possui 192 módulos auto-direcionáveis em seu interior

O radar SAAB Erieye possui 192 módulos auto-direcionáveis em seu interior e sua varredura é de 300º

Comparado ao EMB-145, que cobre uma distância média de 2.500 km, a variante E-99 pode fazer viagens de até 3.000 km ou permanecer voando por 6 horas sobre a área de vigilância. E o alcance da aeronave está programado para aumentar, só não se sabe quando. Em 2003, Embrear e FAB realizaram testes com um sistema de reabastecimento em voo para o avião. O projeto, entretanto, ainda não foi levado a diante.

O interior do avião também passou por uma completa reformulação para a função militar. Em vez dos 44 assentos do EMB-145, o E-99 leva apenas dois pilotos e seis tripulantes que operam os sistemas do radar em complexos computadores com telas que mostram as posições dos aviões.

A aeronave também possui recursos que permitem “conectá-lo” a redes de vigilância em solo e outras aeronaves, que recebem informações captadas do avião em voo e as utilizam para montar um plano de ação de coordenado.

Outra variação militar do EMB-145 é o R-99, um avião de missões ELINT (Serviço de Inteligência Eletrônica). A FAB possui três dessas aeronaves, que em vez da antena Erieye carregam sensores na parte inferior da fuselagem, formando estranhas protuberâncias no corpo do avião. Essas antenas servem para descobrir defesas inimigas, como a origem de um sinal de radar em terra e sinais de mísseis terra-ar teleguiados.

A FAB também possui três R-99, avião de Serviço de Inteligência Eletrônica (ELINT)

A FAB também possui três R-99, avião de Serviço de Inteligência Eletrônica (ELINT)

Outros usuários

Com o surgimento do E-99 na FAB e sua elogiada capacidade de busca, surgiram outros países interessados no avião, que é uma das opções mais em conta no mercado militar para missões AEW&C. Além do Brasil, Grécia, México e Índia também compraram a aeronave, que custa US$ 80 milhões e tem um custo operacional de US$ 2.000 por hora.

Já o radar SAAB Erieye é utilizado pela Força Aérea da Suécia e da Tailândia, a bordo do turbo-hélice SAAB 340, e pelas Força Aérea do Paquistão e da Arábia Saudita com o também turbo-hélice sueco SAAB 2000.

O Chile foi o país pioneiro na América Latina na aplicação de aeronaves AEW&C, com o Boeing EB-707 "Condor"

O Chile foi o país pioneiro na América Latina na aplicação de aviões AEW&C com o Boeing EB-707 “Condor”

O E-99 ainda pode desempenhar missões de comando e controle, gerenciamento de espaço aéreo, coordenação de operações de busca e salvamento, controle e vigilância de fronteiras, vigilância marítima, inteligência de sinais e comunicações e posto de comunicação aéreo. Na América Latina, apenas o Brasil e o Chile (com um Boeing EB-707) possuem aeronaves AEW&C.