Imagem da nuvem atômica de Hiroshima,  a cerca de 30 minutos após a detonação a  10 km a leste do hipocentro (Imagens - Domínio Público)

Imagem da nuvem atômica de Hiroshima, a cerca de 30 minutos após a detonação a 10 km a leste do hipocentro (Imagens – Domínio Público)

Em 1945, com as defesas do Japão já em frangalhos, o Exército Imperial sob comando do imperador Hirohito tentava continuar com os combates mesmo vendo seus estoques de armas, combustível, equipamentos e, sobretudo, vidas de soldados se acabando. A rendição estava fora de questão e o país estava determinado a lutar até o último homem.

No decorrer daquele ano, os Aliados definitivamente frearam qualquer avanço do Japão pelo Pacífico e Ásia e iniciavam assim um processo de invasão forçada, uma vez que o inimigo não se rendia. Forças dos Estados Unidos e Inglaterra, além do apoio de países como China e Austrália, destruíram toda a marinha e força aérea japonesa, detendo qualquer chance de uma nova ofensiva.

Após estabelecer a superioridade naval e aérea, os Estados Unidos iniciaram um doloroso e sangrento processo de enfraquecimento do Japão. Sem fábricas ou importantes pontos de infra-estrutura para atacar, afinal todos já haviam sido destruídos, iniciou-se um processo de aniquilação de cidades inteiras. Tóquio, Nagoia, Yokohama, Kobe, entre outras, foram arrasadas por incursões diárias e noturnas de bombardeiros Boeing B-29.

Com as grandes cidades destruídas e a persistência do Japão em não se render, iniciou-se o ataque a cidades médias, como seriam os casos de Hiroshima e Nagasaki.

Little boy

Durante a Segunda Guerra Mundial, graças aos investimentos na indústria bélica, houve um avanço tecnológico como nunca antes registrado. Surgiram materiais mais modernos, motores mais potentes e eficientes e mais uma série de contribuições que até hoje são aplicadas em diferentes áreas. O mais importante deles foi a energia nuclear.

A bomba Little pesava 4 toneladas e exigiu a instalação de um guindaste a bordo do B-29

A bomba Little pesava 4 toneladas e exigiu a instalação de um guindaste a bordo do B-29

Em 1942, os EUA iniciaram o “Projeto Manhattan”, que consistia na conversão de aviões B-29 em bombardeiros capazes de levar uma enorme bomba nuclear que estava na fase final de desenvolvimento. A aeronave recebeu um guindaste interno montado sob uma estrutura em forma de H dentro da fuselagem com força o suficiente para elevar um artefato de até 4,5 toneladas.

As primeiras tripulações do B-29 de ataque nuclear iniciaram os treinamentos em total sigilo em dezembro de 1943 na Base Aérea de Muroc, na Califórnia. Em apenas dois meses, os aviões já lançavam bombas de exercício com as mesmas dimensões da “Little Boy”, nome dado a uma das bombas atômicas que os EUA estava desenvolvendo.

A bomba com ogiva de urânio tinha 71 centímetros de diâmetro, três metros de comprimento e 4.000 kg. Uma segunda bomba, com ogiva de plutônio (a “Fat Man”), era ainda maior, com 1,52 metro de diâmetro e 3,2 metros de uma ponta a outra e pesava 4.500 kg.

Modelo pós-guerra da bomba Fat Man. O artefato tinha ogiva de plutônio e pesava 4,5 toneladas

Modelo pós-guerra da bomba Fat Man. O artefato tinha ogiva de plutônio e pesava 4,5 toneladas

Devido ao enorme peso da bomba, pelo menos três B-29 caíram ao tentar decolar e esse risco seguiria até o lançamento da primeira missão em base de Tinian, nas Ihas Marianas, onde uma das aeronaves se acidentou com uma bomba de testes.

Treinamentos de navegação de longa distância com aviões carregando modelos da bomba atômica foram realizados em diferentes pontos isolados dos EUA e até mesmo sobre Cuba. Enquanto isso, cientistas norte-americanos explodiram o primeiro artefato nuclear, no Novo México, em 16 de julho de 1945. Estava tudo preparado.

“Maior acontecimento da história”

Os B-29 preparados e suas tripulações treinadas, então pertencentes a divisão 509º da Força Aérea dos EUA, foram enviados imediatamente para as Ilhas Marianas, no Pacífico, ao sul do Japão, onde já estava preparada uma base com todos os suprimentos para realizar o bombardeiro nuclear. O primeiro ataque foi marcado para o dia 6 de agosto de 1945, com autorização do então presidente dos EUA Harry S. Truman.

Tripulação do B-29 "Enola Gay" com o comandante Coronel Paul Tibbets ao centro

Tripulação do B-29 “Enola Gay” com o comandante Coronel Paul Tibbets ao centro

A missão foi coordenada pelo General Carl A.Apaataz, comandante da recém formada “Força Aérea Estratégica dos EUA no Pacífico”. Em 24 de julho, o Genenal recebeu uma ordem que determinava que “lançasse sua primeira bomba ‘especial’ tão logo o tempo permitisse bombardeiro visual após o dia 3 de agosto de 1945 e em um dos alvos: Hiroshima, Kokura, Niigata ou Nagazaki”, segundo relato do livro “B-29 Superfotaleza”, de John Pimlott.

As bombas Little Boy e Fat Man chegaram de navio a base de Tinian em 29 de julho e em apenas três dias os aviões já estavam preparados para a missão.

No dia 6 de agosto, às 1:45 da madrugada, aviões de reconhecimento voando sobre o Japão relataram condições favoráveis para lançar um ataque com segurança. Às 2:45 o B-29 “Enola Gay”, nome da mãe do comandante da aeronave, o coronel Paul Tibbets, decolou em direção ao Japão com Hiroshima como alvo primário.

O Boeing B-29 foi o maior bombardeiro da Segunda Guerra Mundial, com capacidade para carregar até 10 toneladas de bombas

O Boeing B-29 foi o maior bombardeiro da Segunda Guerra Mundial, com capacidade para carregar até 10 toneladas de bombas

Uma hora após o avião alçar voo, o oficial da marinha dos EUA especialista em explosivos, William Parsons, foi até o porão de bombas para armar o complexo sistema de detonação da Little Boy, processo que levaria uma hora e meia. Para evitar um acidente de proporção nuclear, o artefato era armado somente com a aeronave já voando a grandes altitudes.

Junto do Enola Gay voaram à sua frente outros três B-29 de reconhecimento transmitindo condições sobre o clima ou outras adversidades que pudessem comprometer o ataque (e a bomba), como uma ofensiva de caças japoneses ou disparos de artilharia anti-aérea. Com o caminho livre reportado, Tibbets partiu em direção a Hiroshima.

Folhetos como esse eram lançado sobre o Japão, mostrando os nomes de 12 cidades japonesas alvo de destruição por bombas incendiárias. O texto contido do outro lado dizia que "não podemos prometer que só estas cidades estarão entre aquelas atacadas..."

Folhetos eram lançados sobre o Japão, avisando sobre as 12 cidades que poderiam ser atacadas para que a população pudesse deixar a região a tempo. O texto dizia: “não podemos prometer que só estas cidades estarão entre aquelas atacadas…”

Às 8:15 da manhã, o B-29 se aproximou do alvo a 460 km/h e numa altitude 9.700 metros, quando a bomba foi lançada mirando a ponta do cais do porto de Hiroshima, que era o maior na região sul do Japão. Ao cair do porão, a bomba imediatamente abriu um para-quedas estabilizador e o avião rapidamente iniciou uma curva para a direção oposta: 51 segundos depois, a 244 metros do solo, a bomba deflagrou, devastando a cidade.

Segundo relato da tripulação do Enola Gay, que vestia óculos de solda para se proteger do clarão da explosão, o “cogumelo” de fumaça gerado pela bomba podia ser visto a de 500 km de distância. O ataque vitimou imediatadamente cerca de 78 mil pessoas e causou a destruição de 48 mil edificações, além do dano a longo prazo com problemas de radiação.

Apesar do ataque devastador, a ação não levou a imediata rendição do Japão, que era exigida pelos EUA. Autoridades nipônicas iniciaram uma série de reuniões e novamente não chegaram a um consenso sobre abandonar a guerra e ceder às pressões. Não foi apenas isso: no dia 8 de agosto, a União Soviética declarou guerra ao Japão e iniciou a invasão da Manchúria, no norte da China, região que estava sob controle dos japoneses.

Os dois ataques nucleares no Japão ocorreram num intervalo de três dias

Os dois ataques nucleares no Japão ocorreram num intervalo de três dias

Após dois dias sem nenhuma resposta, o presidente Trumam, que descreveu o ataque sobre Hiroshima como “o maior acontecimento da história’, autorizou uma nova incursão nuclear com os B-29 sobre outra cidade japonesa.

Hiroshima antes do ataque da "Little Boy" (a esquerda) e depois; a explosão da bomba causou a morte de mais de 70 mil pessoas

Hiroshima antes do ataque da “Little Boy” (à esquerda) e depois; a explosão da bomba causou a morte imediata de mais de 70 mil pessoas

A destruição do Japão

No dia 9 de agosto de 1945, às 4:00 da manhã, decolou o B-29 “Bock’s Car” em homenagem ao seu comandante, o Capitão Frederik C. Bock, mas que seria pilotado nessa missão pelo Major Charles Sweeney. Para esse avião, foi preparada a bomba Fat Man, com ogiva de plutônio e efeito ainda mais devastador. O alvo era Kokura, com Nagasaki como alternativa.

A missão do Bock’s Car, no entanto, não foi tão fácil como a realizada pelo Enola Gay três dias antes. Ao sobrevoar Kokura, a cidade estava protegida por uma nuvem densa e, apesar de três tentativas, o bombardeiro não encontrou o ponto de lançamento. Com pouco combustível, Sweeney decidiu seguir para Nagasaki, onde aviões de reconhecimento transmitiam informações sobre céu claro.

O B-29 chegou a Nagasaki um pouco antes das 11:00 e lançou sua carga, devastando completamente mais uma cidade do Japão com apenas um tiro. Calcula-se que esse ataque deixou cerca de 80 mil mortos, além dos efeitos nocivos causados pelo material nuclear.

Tripulação do B-29 Bock's Car, que foi comandando pelo Major Sweeney no ataque a Nagasaki

Tripulação do B-29 Bock’s Car, que foi comandando pelo Major Sweeney no ataque a Nagasaki

Com a população em pânico e o governo totalmente abalado, somado ainda a declaração de guerra soviética, o Japão reconheceu que tinha chegado o fim. Depois de reuniões de consultas com o Imperador Hirohito, a aceitação dos termos dos Aliados foi telegrafada aos líderes dos “Três Grandes” (EUA, Reino Unido e URSS), através da Suíça e Suécia.

Levou algum tempo para que os detalhes finais fossem acertados e a campanha de bombardeiro convencional continuou até 14 de agosto. A rendição do Japão seria assinada somente em 2 de setembro de 1945 e assim foi declarado o cessar fogo. Os EUA ainda tinham mais quatro bombas nucleares preparadas nas Ilhas Marianas.

Mesmo após os ataque nucleares, os bombardeiros convencionais sobre o Japão continuaram por mais cinco dias, até serem encerrados em 14 agosto de 1945

Mesmo após os ataque nucleares, os bombardeiros convencionais sobre o Japão continuaram por mais cinco dias até serem encerrados em 14 agosto de 1945

A decisão pelo uso da bomba atômica, como descreveu o presidente Truman na época, impediu uma invasão forçada do território japonês, o que poderia estender a guerra por mais um ano e causar elevadas perdas por parte dos Aliados durante esse processo.

Após a demonstração de poder infame da bomba atômica sobre o Japão, o artefato nunca mais foi utilizado em combate outra vez. Mesmo assim se tornou o armamento de dissuasão mais eficiente para uma nação. Atualmente os únicos países que possuem bombas nucleares são os EUA, Rússia, Reino Unidos, França, China, Índia, Paquistão, Coreia do Norte e Israel.

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