O Boeing 777 da Emirates após longa jornada

O Boeing 777 da Emirates após longa jornada

AIRWAY encerra com esse artigo uma série de quatro reportagens sobre o voo entre o Brasil e o Japão a bordo da companhia aérea Emirates, uma das mais premiadas do mundo. Sergio Quintanilha, nosso colaborador, é redator chefe da revista Motor Show, da Editora Três, e, entre outros projetos, lançou no Brasil a revista Avião Revue, que surgiu originalmente na Alemanha. Confira a última parte a seguir:

Quarta perna: DXB/GRU – VOO EK261

Depois de um dia em Dubai, onde um chope pode custar o equivalente a R$ 28, cheguei cedo ao aeroporto para o longo voo de volta ao Brasil. A configuração da executiva é 2-3-2, de forma que 8 dos 42 passageiros da business precisam viajar no meio. Um passageiro vestindo a camisa do glorioso Santos de Pelé foi retirado da aeronave por estar visivelmente alcoolizado.

O Boeing 777-300ER A6-ECM foi empurrado para trás às 10h28 e 15 minutos depois alinhou na cabeceira 12R de Dubai. O “Charlie Mike” fez seu primeiro voo em 30/12/2008 e foi adquirido por leasing junto à Gecas. O comandante exigiu potência total dos motores às 10h44 e 40 segundos depois tirou-o do chão rumo ao Brasil. Subiu 2.000 pés e fez três curvas à direita, a 541 km/h. Alinhou na subida a 4.000 pés e já estava a 644 km/h quando atingiu 6.000 pés.

É impressionante a facilidade com que esse avião decola e ganha velocidade. Seguiu-se um lindo sobrevoo de Dubai até 15.500 pés. Mas uma passageira derrubou seu celular e achou que ele tivesse ido parar dentro do assento, que foi totalmente desmontado. Uma comissária disse que seria perigoso voltar a usá-lo porque o celular poderia explodir dentro das engrenagens e provocar um incêndio. Eu já estava com medo quando decidi pedir para o passageiro de trás dar uma olhadinha debaixo do assento dele. O aparelho estava lá, livre e solto. Esse pequeno drama durou tanto que já estávamos voando a 30.000 pés quando tudo se acalmou.

Incrível vista de Dubai

Incrível vista de Dubai

A vida a bordo melhorou quando a comissária Bartira, uma portuguesa, passou tirando os pedidos de vinho. Para o almoço, que foi servido após Riyadh, a 31.000 pés, coloquei na tela um filme especial: “Casablanca”. O almoço começou com champanhe Veuve Cliquot e Mezze Árabe Tradicional. Nada mal. O prato principal foi um delicioso Ragu de Carne com páprica e alho, servido com batatas assadas e vagens no vapor, acompanhado de vinho tinto francês Château d’Angludet 2007 Margaux. No final, enquanto Rick Blayne ajudava o casal Victor Laszlo e Ilsa Lund a fugir de Casablanca para Lisboa, chegou ainda uma tábua de queijos com vinho do Porto. O Triple-Seven penetrava o continente africano a 32.000 pés, voando a 875 km/h. Ganhei um chocolate Godiva da comissária. As luzes do avião foram apagadas e acabei dormindo.

Quando acordei, estávamos sobrevoando a Ilha de São Tomé, no começo do Oceano Atlântico. Na volta, voando na mesma rotação da Terra, o 777 era mais rápido e tinha descontado quatro horas do fuso horário. Mas a viagem é longa, muito longa. De dia, as horas não passam. Cansei dos filmes e decidi ouvir música. Escolhi Beatles e dormi depois de ouvir sete álbuns completos – uma demonstração da fantástica variedade de entretenimento da Emirates. A comissária me acordou para o jantar. Como não havia o prato que eu queria no almoço (Duo de Peixes: salmão com ervas e halibute defumado), ela disse que dessa vez eu teria preferência na escolha.

Faltavam duas horas e meia de voo ainda. O tempo estava bom, com poucas nuvens, mas havia turbulência e a velocidade era alta: 911 km/h. Enquanto esperava o jantar, continuei nos Beatles: tocava o rock “Back in the U.S.S.R.” quando a aeromoça derrubou uma taça na minha perna. Parecia irritada. Desisti da música, não aguentava mais ouvir os Fab Four de Liverpool. Escolhi o mesmo vinho francês para acompanhar a entrada: Sopa-creme de Espinafre com ravioli de ricota. Quando retirou os pratos, Bartira voltou a sorrir. Minha escolha preferencial de prato quente, Posta de Salmão Defumada, chegou em boa hora, mas não gostei e comi só um pouco. Quando entramos no território brasileiro, sobrevoando Vitória, já eram 23h45 em Dubai. O cansaço e o tédio, nessa altura, eram grandes.

Finalmente o avião começou a descer. Passou por muitas nuvens a 26.000 pés, mas o tempo não estava totalmente fechado. Quando chegou a 16.000 pés, para minha surpresa e desalento, a tripulação trancou os banheiros com vários sacos de lixo! Continuamos descendo e furamos três aglomerados de nuvens a 13.000, 10.000 e 8.000 pés. A velocidade foi reduzida para 457 km/h. Pela câmera que apontava para baixo, dava para ver o chão, mas a 6.000 pés ainda havia uma grossa camada de nuvens. Pensei que estivesse chovendo, pois não dava para ver nada, mas finalmente, a 4.000 pés, clareou. O Boeing 777 da Emirates cruzou a cabeceira 27R de Guarulhos a 302 km/h e pousou às 19h02. Tinha acabado de chover em São Paulo e a temperatura era de 26oC. Os motores foram desligados às 19h11, encerrando a longa jornada de ida e volta do Brasil ao Japão via Dubai.

A Emirates foi eficiente em todos os sentidos e está de parabéns, mas a rota é extremamente cansativa, o horário de ida é péssimo, a conexão em Dubai é muito demorada e a perna de volta, durante o dia, é entediante. Continuo achando que a rota dos Estados Unidos (via Nova York pelo code-share TAM/JAL ou via Washington pela dobradinha United/ANA) é mais racional.

Veja também os outros posts da viagem:

Primeira perna
Segunda perna
Terceira perna