Boeing 777-300ER da Emirates, usado na rota São Paulo-Dubai

Boeing 777-300ER da Emirates, usado na rota São Paulo-Dubai

AIRWAY publica a partir de hoje uma série de quatro reportagens sobre o voo entre o Brasil e o Japão a bordo da companhia aérea Emirates, uma das mais premiadas do mundo. Sergio Quintanilha, nosso colaborador, é redator chefe da revista Motor Show, da Editora Três, e, entre outros projetos, lançou no Brasil a revista Avião Revue, que surgiu originalmente na Alemanha.

Desde que o navio Kasato Maru chegou ao Brasil, em 1908, trazendo os primeiros imigrantes japoneses, as viagens até o Japão tornaram-se comuns na vida dos brasileiros. Por via aérea, a primeira ligação entre os dois países aconteceu somente em 1960 e 1961, operado pela Real Aerovias. De 1968 a 2005, a Varig operou um voo diário entre o Brasil e o Japão, fazendo escala em Los Angeles. E a JAL (Japan Air Lines) manteve uma linha direta entre os dois países de 1978 a 2010. Desde aquele ano, uma das opções mais procuradas é a rota que passa por Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. O voo é operado pela Emirates Airline. Voando de classe executiva, como foi o meu caso, o passageiro tem direito a algumas mordomias: táxi gratuito de casa até o aeroporto e vice-versa e um dia de estada em Dubai. Pena que o programa de milhagem Skywards não faça parte de nenhuma aliança internacional.

Primeira perna: GRU/DXB – Voo EK262

Chovia em São Paulo no dia da ida. Por isso, a agência responsável pelo carro que me levaria ao aeroporto de Guarulhos marcou de me pegar em casa às 18h30, apesar de o voo só partir à 00h05. Cheguei ao Terminal 3 exatamente às 20h00. Pelo site, eu já havia reservado o assento 7K (janela). Ganhei acesso à sala VIP “GRU Airport” (a mais simples das três que funcionam no T3) e, enquanto esperava o embarque, pude tomar uma boa sopa de alho poró com batata e um honesto vinho tinto chileno Gato Negro Carménère.

O Boeing 777-300 que me levaria a Dubai tinha a matrícula A6-ECJ. O “Charlie Juliette” tem dois motores GE90-115B, como os demais 777 dessa viagem. Ele voou pela primeira vez em 06/08/2008 e foi incorporado à frota por meio de leasing junto ao Noor Islamic Bank. Configurado para 364 passageiros, o 777 ECJ tinha poucos porta-objetos para uma classe executiva com a fama da Emirates, mas um ótimo lugar para guardar livro na lateral do assento. O acabamento é luxuoso em bege e marrom. À frente, uma tela enorme anunciava o filme Jurassic World e dava algumas informações úteis, como o tempo de voo previsto (13h53min), a distância a ser percorrida (7.956 milhas ou 12.228 km), a altitude do aeroporto de Guarulhos (2.449 pés ou 750 metros) e até o clima do momento (nublado com 22oC). Gostei de ver que havia duas câmeras no nariz do avião (uma apontando para frente, outra para baixo).

Um comissário fez o speech em português e as instruções de segurança foram passadas em vídeo. À 00h11, com apenas 6 minutos de atraso, o comandante Serge conduziu o 777 da Emirates por um táxi de 18 minutos e alinhou na cabeceira 27L, com a proa em direção a Jacareí. Fez uma bela corrida de 47 segundos e decolou exatamente à meia-noite e meia, num céu já sem nuvens. Mostrando vigor na subida, o 777 só balançou um pouco a 13.000 pés, na proa de Angra dos Reis. A 20.000 pés, já voava a 872 km/h. Atingiu 30.000 pés de altitude quando havia percorrido 200 das quase 8.000 milhas previstas de voo. Sua velocidade era de 923 km/h. Faltavam 5 minutos para uma da manhã quando coloquei na tela o filme “Charade”, com Cary Grant e Audrey Hepburn. Então os comissários passaram servindo “pratos leves” e pedi “Travessa de Antepastos”, composta por bresaola, bruschetta de tomate e mozzarella, queijo taleggio, legumes grelhados e tapenade de azeitonas. O prato foi servido meia hora depois.

Havia uma turbulência leve a 31.000 pés e, como o filme escolhido não tinha legendas e eu não estava querendo “pensar em inglês” naquela altura da madrugada, troquei por uma atração mais leve: Asterix em “The Mansions of the Gods”. Notei que havia wifi a bordo (US$ 1 dólar no cartão de crédito), mas não usei. Vítima de meu paradigma de uma viagem anterior a Dubai, fiquei esperando o jantar, mas só às 2h10, quando já estava impaciente com a demora, percebi que mudaram o sistema e não haveria jantar no início — e sim um café da manhã no meio da viagem e um almoço antes da chegada.

Esse voo da Emirates sai tarde demais e dá um nó no horário biológico do passageiro. Mesmo assim, dormi. Mas acordei umas duas horas depois, devido ao forte balanço da aeronave. Abri a janela esperando encontrar uma noite cheia de nuvens e relâmpagos, mas o que vi foi um céu claro, com o sol brilhando no horizonte, pois voávamos na direção oposta à rotação da Terra. O 777 voava a 987 km/h no meio do Atlântico entre o Brasil e a África, na altitude de 33.000 pés. A turbulência era provocada pelo vento de cauda de 74 km/h.

Prato de frios servido após a decolagem em Guarulhos

Prato de frios servido após a decolagem em Guarulhos

Decidi dar um passeio até a galley do 777, onde o comissário português Ricardo, 21 anos, preparava um bolo para uma comissária que fazia aniversário. Ela estava dormindo, assim como outros três comissários e uma dupla de pilotos. Lá fora o sol já era forte e voávamos no meridiano de Salvador (porém, muito mais perto da África). Peguei um livro para ler e acabei dormindo de novo. Às 6 da manhã (em horário brasileiro), fui acordado para o café. Ainda abaixo da linha do Equador, naquela parte em que o oceano forma um triângulo com a parte ocidental da África, o 777 voava no rumo nordeste a 888 km/h, na altitude de 33.000 pés, finalmente sem turbulência. Serviram um lindo Omelete de Queijo com galette de milho e batata, cogumelos grelhados, aspargos e relish de tomate. Dubai estava a 7.000 km.

Ao entrar no território africano, logo após cruzar a linha do Equador, o “Charlie Juliette” da Emirates encontrou tempo ruim, céu turbulento, e foi autorizado a subir para 35.000 pés. Antes do almoço, subiu novamente, dessa vez para 37.000 pés, evitando as nuvens cada vez mais altas. O almoço tinha três pratos como opções: Sopa de Mandioca, Rosbife e Salmão Defumado.

Veja também: Impressões de voo entre Lima e Cuzco, no Peru

Faltando 35 minutos para o pouso, com céu claro, iniciou a descida em ângulo bem inclinado e foi assim dos 37.000 até os 10.000 pés, quando estabilizou e fez uma longa curva à esquerda, a 505 km/h. A 7.000 pés, reduziu a velocidade para 440 km/h e fez outra curva para a esquerda. Desceu a 5.000 pés e virou novamente à esquerda, deixando a cidade de Dubai à nossa direita. Depois fez várias manobras à direita, enquanto descia a 3.500 pés e reduzia a velocidade para 346 km/h. Foi para a aproximação final com vento de proa de 18 km/h e baixou o trem de pouso a 2.500 pés de altitude. Dubai é um bom lugar para voar, pois não tem obstáculos naturais (só o edifício mais alto do mundo, o Burj Khalifa, de 828 metros, que fica longe da rota). O Boeing 777 da Emirates cruzou a cabeceira 30 do aeroporto de Dubai a 285 km/h e fez um pouso suave. Eram 20h29 locais e fazia 32oC. Apenas 4 minutos depois, os motores já estavam desligados.

Aeroporto de Dubai

O transfer de ônibus até o terminal levou mais de 10 minutos. Os funcionários do aeroporto vestem túnicas e usam vistosos relógios de pulso. O voo para Tóquio partiria somente cinco horas e meia depois. Viajando de classe econômica, não deve ser nada fácil essa espera, apesar das comodidades do aeroporto de Dubai. O bilhete de executiva, claro, garante acesso à gigantesca área VIP da Emirates, que ocupa metade do mezanino no segundo andar do terminal. A outra metade é reservada para a “sala” VIP da primeira classe. Tudo em Dubai é gigantesco – e no aeroporto não é diferente. Centenas de poltronas, sofás e mesinhas garantem o conforto dos passageiros. Existe uma área de snacks, lanches e bebidas e um restaurante que funciona 24 horas. Não há limite para comida ou bebida. Além de acesso à internet, a área VIP da classe executiva dispõe de banheiros com chuveiro. No horário de chegada do voo do Brasil o movimento é bem tranquilo. Nos horários de pico, entretanto, próximo dos embarques para Tóquio e São Paulo, é difícil conseguir um chuveiro vago para banho e até para fazer xixi existe fila.

Nuvens sobre a África

Nuvens sobre a África

Acompanhe a segunda parte da viagem entre São Paulo e Tóquio pela Emirates.